O Quebra Nozes no Teatro Municipal

Por Mariano Marovatto

 

Há muito tempo havia o Teatro Municipal no Rio de Janeiro. Um teatro imponente, muito brilhoso, uma pequena fortaleza de mármore e acabamentos dourados. Naquela época eu era jovem e nunca tinha assistido a uma orquestra tocar ao vivo. O que conhecia, escutava em casa apenas. Quando era ainda mais novo, o bisavô de vocês um dia me levou à Mesbla, que era uma loja de departamentos com filiais espalhadas pela cidade, e me comprou um CD do ballet Quebra Nozes, composto pelo senhor Piotr Ilich Tchaikovski. De cara fascinei-me pelo nome Piotr. Como poderia aquilo, terminado em consoantes tão duras, ser a tradução de “Pedro”, um nome… tão simples? Imaginem que para os russos o nome próprio Piotr é igualmente corriqueiro. Talvez não tanto quanto Dimitri ou Mikhail, é verdade. Piotr, de nome, virou um brinquedo pra mim: batizei um piloto fictício de corrida de carros de Pjotr que na realidade era eu mesmo. Ganhei algumas corridas na minha imaginação com esse nome que se impunha sobre os adversários.

A capa do CD do Quebra Nozes era bastante genérica como sempre foram as capas dos discos de música clássica. Era um quadro de algum pintor que jamais saberei quem era. Provavelmente famoso, talvez uma paisagem impressionista, mas curiosa pois bastante amarela, respingada de pontilhados pretos. Nada de azul, rosa ou branco, essas cores francesas dos impressionistas. A sinestesia russa é diferente. A música que vinha do disco era bastante espantosa, desconformada das coisas que eu escutava quando tinha a idade de vocês. Havia uma orquestra: ninguém cantava nada. Mas, surpreendentemente era possível tirar dali uma narrativa, uma historinha que acompanhava o título das faixas. A começar pelo trio de localidades, com sabores: “Dança Espanhola (Chocolate)”, “Dança Árabe (Café)”, “Dança Chinesa (Chá)”. Música, geografia e bebidas quentes. Procurando uma resposta razoável, descobri que o Quebra Nozes (que é aquele apetrecho estranho que só vemos na mesa da ceia de Natal) era um “balé feérico”. Era “Lucy in the sky with diamonds” então, pensei.

Ouvir o Quebra Nozes é bastante diferente de ver o Quebra Nozes. Devo confessar que talvez seja até melhor. Tão saboroso quanto ouvir o próprio Sgt. Peppers, dos Beatles. Com esses dois discos especificamente, notei uma coisa: é importante ter antes para si a música feita para a cena, ouvi-la, imaginá-la se movendo. (Sim, eu sei que não existe um filme do Sgt. Peppers, mas tem aquele desenho do Yellow Submarine, que nunca achei tão impactante como deveria ser, que é um reflexo - ou refluxo - visual do álbum de 67 dos Beatles. Mas agora estamos falando do Tchaikovski, com licença). Aí sim, depois desse exercício, ir ao teatro para assisti-la. O triste é que o resultado raramente ganha da sua imaginação. Queridos netos, é bastante difícil transpor tim tim por tim tim o onírico para o palco. Ou mesmo para um livro. O resultado é sempre outra coisa, e daí mais uma outra lição do vovô: é preciso aceitar esse resultado, não como um fracasso, mas como um bicho diferente daquele que primeiramente foi imaginado. Uma desdobra.

Da montagem do Quebra Nozes que vi no Municipal naquele final de século XX não me lembro muito. Sei que havia uma produção caprichada ao gosto das festas natalinas - o Quebra Nozes, tanto na Rússia quanto no Brasil, quanto no mundo inteiro - é montado sempre próximo às festas de fim de ano. Deve ajudar um tanto o comércio das nozes, inclusive. Lembro de ver no rosto dos bailarinos o nervosismo e a vaidade. Lembro claramente das bailarinas serem mais talentosas do que os bailarinos. Um efeito claro da opressão. Ao fim, foi divertido ver toda uma produção cênica para uma música que só havia estado em movimento dentro da minha cabeça. Não lembro da cena da Dança Árabe, nem da Chinesa, nem da Russa. Havia alguém na ponta dos pés durante o número da Fada Açucarada, como não poderia deixar de ser. O mais impactante todavia foi a orquestra. Sentamos na frisa do lado esquerdo justo na hora em que a orquestra afinava, desordenadamente, seus instrumentos. Aquela massa alegre de sons vindo daquela população camuflada no fosso do teatro me emocionou como poucas coisas na vida. Senti que finalmente eu pertencia a um lugar, a um momento. A desordem, sem pauta, de uma orquestra era a véspera do big-bang. Tão importante quanto tudo o que viria a acontecer depois dali.

 

Mariano Marovatto é escritor, cantor e compositor, e não possui netos


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