Ideias para adiar o fim do mundo

Ideias para adiar o fim do mundo
Autor: Ailton Krenak
Editora: Companhia das Letras
São Paulo, 2019
Número de páginas: 62


Um livro desconcertante para adiar o fim do mundo
por Helena Venâncio

 

Quando ouvi pela primeira vez o título ‘Ideias para adiar o fim do mundo’ a imagem que me veio cabeça foi a de uma espécie de livro de autoajuda com ideias para ser mais sustentável. Krenak faz muito mais do que isso. Ele disserta sobre a vida criada ao longo do Antropoceno e que culminou na noção de humanidade que encontramos nos dias de hoje. O livro reúne duas palestras e uma entrevista provocantes. Elas trazem tanto ideias que já são debatidas em rodas de conversas, quanto ideias que eu nunca tinha pensado antes sobre. Cada argumento é  importante, sustentado por uma série de recursos diferentes. Tudo é desconcertante, mas ao mesmo tempo o livro carrega uma beleza. Através de histórias e analogias são criadas lindas imagens, como a de um pulo de paraquedas, milhares de paraquedas coloridos que nos levarão para o fim deste mundo.

Krenak incomoda. E não apenas os grandes empresários. Ele delata as mentalidades que nos fazem separar os humanos da natureza, e as ideias e falas muitas vezes repetidas mesmo por aqueles que pensam estar fazendo o bem ajudando o meio ambiente. Ele nos leva a aquestionar o que significa ser sustentável, se esses atos de que nós tanto nos orgulhamos - como reciclar e não usar plástico – vão realmente fazer uma diferença se não forem acompanhadas do afastamento da convicção de que os humanos estão acima das plantas, animais, montanhas e rios, e não ao seu ao seu lado, fazendo parte deles. Krenak nos pensa como parte de cada elemento que compõe o universo, com cada átomo que um dia veio da explosão de uma estrela e criou tudo que nós conhecemos.

Apesar de tudo, o livro traz um sentimento de esperança, de que é possível fazer as mudanças necessárias, mesmo com os problemas tão enraizados como estão. É necessário abandonar o medo e olhar para as gerações futuras, para o mundo em que os nossos netos vão viver. Nesse sentido, ele me lembrou dos discursos de Greta Thunberg, mas, ao contrário dela, ele mexe com as noções do que acreditamos ser humanidade e os sentimentos de coletividade que foram criados e que estão tão incrustados na nossa mentalidade, definindo as noções do que é ser e do que é ser em sociedade. 

Krenak mostra como nós nos tornamos muito fixados numa definição limitada de humanidade e de natureza. Para ele o sonho “talvez seja outra palavra para o que chamamos de natureza”. Essa ideia de que há um jeito certo de viver na Terra, uma espécie de verdade absoluta que deveria reger a vida de todos e, se esse não for o caso, vale usar da violência para consegui-lo. É como se existisse uma espécie de clube da humanidade, do qual todos aqueles que vivem nesse planeta deveriam ser membros. Mas em vez de recebermos benefícios ao entrar, encontramos a extinção da pluralidade e um afastamento da natureza, para nos aproximarmos do consumismo e do mercado, transformando em produto o que um dia já foi vida.

Vivemos em uma era batizada de Antropoceno e mesmo assim não nos damos conta da gravidade dos nossos atos. Modificamos tanto o planeta que a era em que nos encontramos pode ser identificada com o nosso nome. Isso não é motivo de orgulho e sim de preocupação. Ideias para adiar o fim do mundo faz um lindo trabalho em nos alertar disso, trazendo à tona verdades que muitas vezes ficam escondidas atrás de certas fachadas construídas como em pró da sustentabilidade e do bem estar. Ele nos faz perceber que apesar de um ato poder falar mais do que mil palavras são os pensamentos por trás dos atos que vão trazer a mudança que esse mundo precisa.

Helena Venâncio tem 16 anos e estuda no Colégio São Vicente de Paulo no Rio de Janeiro. Se apaixonou pela leitura ainda bem pequena através dos seus pais, que sempre liam pra ela. Com o passar do tempo, não abandou os livros e hoje em dia pode sempre ser vista lendo entre os ensaios de balé, deveres de casa e aulas, preferencialmente com a sua gata no colo.


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