Os livros de meu pai

por Karl Erik Schøllhammer

 

Apesar de ter feito um secundário especializado em matemática e física, quando entrei no último ano do curso, o professor de literatura me abriu os olhos para o fato de que minha paixão amadora por romances podia resultar em uma profissão no futuro. Disse também que era um tipo de estudo que eu podia fazer deitado no sofá; talvez esse segundo argumento tenha pesado bastante em minha decisão. É verdade que meu sonho de infância de ser engenheiro e construir pontes e sistemas de irrigação era alimentado pela leitura dos grandes romances de formação do século 19 – Lykke-Per, de Henrik Pontoppidan, em particular – e dos narradores dinamarqueses do século 20 engajados nas causas sociais, como Hans Kirk e Martin Andersen Nexø. Durante os anos do ensino fundamental, minha leitura era errática e voluntarista. Lia um pouco de tudo o que encontrava pela frente, e como meu pai tinha o hábito curioso de comprar livros por quilo nos leilões da cidade, e como esses vinham em caixas fechadas, o estoque em casa não era propriamente uma biblioteca, mas um amontoado bastante aleatório e eclético.

Ninguém na minha família tinha formação escolar além do fundamental. Meus pais começaram a trabalhar por volta dos 16 anos; minha mãe tornou-se secretária numa agência de seguros, onde encontrou meu pai com apenas 17 anos. Aos 21 se casaram, e eu nasci no mesmo ano. Por algum motivo meu pai gostava de livros. Gostava tanto que comprava naquelas caixas fechadas e depois lia ou repassava para os sebos da cidade.

Ainda antes de ser alfabetizado, eu já gostava de mexer nas pilhas de livros de meu pai, estocadas no alto de um guarda-roupa. Observava as imagens, tentava entender o objeto percorrendo as páginas com o olhar. Uma outra paixão de meu pai eram os quadrinhos, que ele comprava compulsivamente e logo revendia depois de lidos, de modo que minhas leituras passeavam sem distinção entre letras e imagens. Na casa de minha avó paterna, onde eu costumava passar as tardes de segunda-feira depois da escola, encontrava coleções de revistas femininas, principalmente Familie Jornalen (“Jornal da Família”) e Hjemmet (“O Lar”), que ela mesma fazia questão de encadernar e que eu adorava “ler”, o que significava ficar olhando os anúncios, as ilustrações e as histórias em quadrinhos, em especial O principe valente, Mandrake e Os sobrinhos do capitão (Knold og Tot). Assim, já contava com alguma formação visual quando comecei a ir ao cinema, nas sessões matutinas de sábado e domingo no Europabio, a sala local do bairro, e nas raras visitas ao teatro da cidade, normalmente para a obrigatória sessão de Natal de Jul på Nøddebo Præstegård (Natal em Nøddebo Præstegård).

Meu contato com o cinema começou com filmes de caubóis e índios, desenhos animados e, acompanhado por minha mãe e suas amigas nas tardes de domingo, os musicais norte-americanos de Doris Day e Gary Grant. Com o tempo, as leituras ganharam maior consistência, mas meus favoritos continuavam sendo os romances de aventura de Louis Stevenson, Alexandre Dumas, Jack London, Rudyard Kipling, Daniel Defoe, Mark Twain e Conan Doyle. Minha mãe ofereceu trocar minha assinatura do Pato Donald por um livro mensal que eu poderia escolher livremente, e logo comecei a optar pela biblioteca de clássicos infantis da editora Gyldendal, cujas capas vermelhas davam certa coerência à coleção.

Meus cursos primário e secundário passaram sem glória ou grandes méritos. Eu ficava mais tempo no campo de futebol do que na escrivaninha, mas sempre gostei de ir à biblioteca pública nas tardes de chuva e neve, bastante frequentes na província dinamarquesa em que vivíamos. Continuava procurando livros sem orientação certa, gostava de encontrar um autor de meu gosto e ler tudo o que encontrava dele, como aconteceu com Willard Motley, Herman Hesse e Salinger, mas também com Agatha Christie, Erich Marie Remarque, Leon Uris, Raymond Chandler, Dashiel Hammet e os suecos Sjöwall & Wahlöö.

Entrei na universidade movido pela paixão desordenada pela leitura, foi uma opção que me permitia o tempo para as leituras longas e labirínticas de clássicos como Dostoiévski, Zola e Dumas e com a ajuda dos invernos longos surgiram condições para o encontro com os romancistas modernos, de Mann a Céline e Musil. Isso sem nunca perder o gosto por um bom suspense de Traven a Le Carré, ou por um quadrinho de Tardi ou Hugo Pratt.

Com o tempo me tornei professor e crítico literário e a opção pelo prazer da leitura foi uma ferramenta muito útil não apenas no exercício analítico; em sala de aula entendi que meu próprio entusiasmo pela leitura era o que sempre mais prendia a atenção de meus alunos. Como teórico da literatura percebo que em alguma medida me ajudaram essas primeiras leituras feitas de maneira meio caótica e sem hierarquia inicial. Isso me obrigou a criar sozinho alguns critérios na relação que eu mesmo estabelecia com os textos. Além disso ali eu aprendia, na prática, que a literatura é algo difícil de delimitar e definir, que ela vive também da constante rearticulação de suas formas, e que suas demandas e efeitos sobre quem lê são mais complexos e variados do que hoje em dia se imagina e se tenta fazer acreditar. 

 

Karl Erik Schøllhammer (Aalborg, 1954) é crítico literário e professor de teoria literária e literatura comparada da PUC-Rio.


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