Catarina Sobral

Ilustradora, escritora e animadora portuguesa.


Quem é a Catarina Sobral?
Nasceu em Portugal em 1985, escreve e ilustra livros para crianças e cinema de animação. Fez a sua formação superior em Design e concluiu em 2012 o mestrado em Ilustração. Colabora regularmente como ilustradora para a imprensa periódica, discos e cartazes e assina doze livros infantis, já publicados em quinze línguas. Tem participado em várias exposições nacionais e internacionais e recebeu prêmios da Feira do Livro Infantil de Bolonha, Prémio Nacional de Ilustração, Sociedade Portuguesa de Autores.

Lembra de você mesma desenhando na infância?
Sim, fazia parte do mesmo universo das outras brincadeiras, por isso ocorria nos tempos livres, nos fins de semana, e sobretudo nas férias.

Qual foi o primeiro livro que ilustrou? Conte-nos um pouquinho sobre esse processo.
Foi o Greve, publicado em 2011. Escrevi-o e ilustrei-o para um exercício do mestrado em Ilustração e depois de concluído propus o projecto a algumas editoras. A Orfeu Negro gostou e começámos a nossa relação nessa altura, já lá vão 9 anos! Ainda trabalhámos texto e ilustração durante cerca de um ano, antes de o publicarmos, mas ainda assim considero-um um livro muito experimental, livre, quase irresponsável. Aprendi bastante a fazê-lo e nele está a génese do meu trabalho autoral: o humor, a metáfora.

As imagens que a Catarina cria surgem com mais frequência dos sonhos, do pensamento, da memória ou da observação das coisas que existem?
Acho que do pensamento, mas vêm também da observação de outras expressões artísticas, surgem por vezes quando leio um texto, ou vejo um quadro, ou um filme...

O cineasta Derek Jarman dizia que o amarelo é uma cor difícil e fugitiva, uma cor que nosescapa como uma mariposa de enxofre a voar velozmente sob a luz da primavera. Também acha que o amarelo é uma cor difícil?
De todo! O amarelo é uma cor com muita luz e por isso ajuda a equilibrar a composição. Tenho dois livros com capa amarela e uso-o frequentemente, com diferentes níveis de saturação, nas minhas ilustrações.

Poderia falar um pouquinho sobre as cores primárias? Como se relaciona com elas?
Entre elas fazem um dos contrastes mais fortes, e por isso, mais eficazes. Tal como o amarelo, também o vermelho e o azul são muito fáceis de trabalhar, precisamente porque são a origem de todas as outras cores. Eu uso-as amiúde, não apenas porque não são complicadas, mas também porque alegram as ilustrações.

Algum projeto que gostaria de realizar e não teve ainda a chance ou o tempo?
Gostava de pintar um mural. Mas não um muralzito, quero um prédio grande em Lisboa!

Por falar em tempo, como é o tempo do desenhar, ilustrar, imaginar imagens? 
É imprevisível, os compassos têm estruturas diferentes e não se repetem. Pelo menos para mim, é impossível prever quanto tempo demoro a fazer uma ilustração: tanto o processo de criar como o de arte-finalizar podem demorar muito mais, ou muito menos, do que esperava. E ainda posso ter de andar para trás a para a frente entre as diferentes fases, ou parar e deixar para outro dia.

A música tem influência sobre o seu modo de produzir imagens?
Para pensar e esboçar imagens geralmente prefiro o silêncio. A música acompanha mais vezes as artes-finais, ou seja, a parte não criativa, durante a qual já não é preciso tomar opções.

E a poesia?
Faz parte da produção de imagens: criar metáforas, camadas de leitura, referências a outras obras de arte e espaço para o leitor. É poesia também, não é?

O que é o silêncio dentro da imagem?
É espaço vazio.

Existem ilustrações que deram errado? Como são?
Claro, por detrás de cada ilustração que deu certo há quase sempre uma que deu errado, nem que seja nos primeiros esboços. São feias ou desinteressantes, comuns, sem estímulo ou em desequilíbrio.

André Breton dizia que as palavras "fazem amor", o que podemos dizer das imagens com as palavras? São amigas? Namoram? Brigam muito?
Nos livros ilustrados namoram, e por isso podem estar de acordo nalgumas páginas e em desacordo noutras. Mas em qualquer um dos casos, o resultado da conversa é mais importante do que a contribuição de cada uma das partes.

Existem textos impossíveis de se ilustrar?
Não sei, mas há textos que talvez ficassem melhor sem ilustração. Já vi alguns, embora o problema possa ter sido um desajuste na interlocução. 

Sobre maneiras de desenhar: faz os desenhos todos de maneira tradicional ou usa alguma ferramenta digital?
Uso ferramentas digitais, muito pouco ou nada nos livros, quase sempre no resto.

O que mais lhe instiga no olhar das crianças sobre o mundo?
A desconstrução: elas vêm a relação entre as partes, a escala e a mecânica dos objectos e dos corpos de outra forma. Nenhum cubista consegue ganhar a uma criança.

Existe diferença crucial entre ilustrar para adultos ou para crianças?
Não acho que exista, e o que se aprende a desenhar e escrever para crianças deve informar, a meu ver, a forma de desenhar e escrever para adultos. Para mim é um processo de síntese: de eliminação do acessório, de redução ao essencial. E como os leitores mais pequenos observam o objecto artístico a partir de um lugar de maior liberdade, é também a criação de um espaço permeável, não prescritivo e que nasce, geralmente, das emoções. Isto é igualmente útil quando falamos de um público adulto.

Como é ser ilustradora em Portugal? Algum desafio específico a esse contexto criativo que influencie o seu modo de trabalhar?
Talvez o maior desafio em Portugal seja igual para qualquer profissão: a falta de dinheiro, de planeamento (a pressa), e de alguma formalidade. Se recebo algum contrato no início de uma colaboração, é sempre para um cliente estrangeiro. Apesar de chato, isso protege-nos mais a nós do que pensamos.


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