Luciana Grether

Carioca, ilustradora, professora de artes e designer.


Quem é a Luciana Grether?
L: Sou carioca, estudo e dou aulas de artes e design. Faço ilustrações para livros, peças de teatro, projetos de CD, jornal e TV, sonho ser dançarina. Convivo com João Bina, Gloria e Elisa (marido e filhas), são todos tão bons desenhistas que me ajudam com as criações.

Lembra de você mesma desenhando na infância? Que sensação guarda desses momentos?
L: Lembro, ainda pequena, que fiquei feliz demais em ganhar um concurso de desenho sobre o filme A Dama e o Vagabundo! Lembro da minha irmã lendo livros pra mim, do meu pai me contando histórias em que misturava personagens dos vários contos de fadas. Minha mãe me contou que numa certa época eu só desenhava com lápis preto na escola, ficaram todos preocupados até que descobriram o motivo, eu ia devagar até o pote de materiais e os pretos eram os únicos que sobravam.

Qual foi o primeiro livro que ilustrou? 
L: A criação das palavras de Beatriz Ferreira de Carvalho Patrício, publicado pela Editora AMAIS, em 1998. Beatriz na época era uma criança de 11 anos. Depois veio o convite para o segundo livro, Desumanas fábulas, pela Imago Editora, dessa vez escrito por Sylvio Massa de Campos. Essa publicação completou 20 anos em 2019 e foi um marco na minha trajetória. Em 2001 um exemplar do livro foi parar na edição do Jornal do Brasil e os editores do jornal me chamaram pra ilustrar semanalmente as colunas Opinião, Caderno B e Revista de Domingo. Foram mais de 100 ilustrações durante um ano de colaboração num período de intensas aprendizagens para uma jovem então recém formada.

As imagens que a Luciana cria vêm dos sonhos, do pensamento, da memória ou da observação? 
L: As imagens vêm de todas essas fontes e em cada história invisto mais em uma ou mais em outra fonte. O livro Meu querido vovô Romano, de Thaís Velloso publicado pela Lago de Histórias teve as ilustrações compostas a partir das memórias da escritora e invenções minhas. Água comovida de Ana Lúcia Leite, da Editora Mar de ideias, foi ilustrado a partir do sonho da personagem com aquarela e a água doce coletada em um poço encantado... São muitas experiências nessa trilha criativa.

Algum projeto que gostaria de realizar e não teve ainda a chance ou o tempo? 
L: Sim, vários! Dois deles com minhas filhas e meu marido e outros com outras parcerias! Em breve (trabalhando pra isso) teremos novos livros com Mimi Do Azô, Calango, Dinossauro, entre outros.

Por falar em tempo, como é o tempo do desenhar, ilustrar, imaginar imagens? 
L: Observo muito as cenas reais, olho muito as pessoas na rua e quem me ensinou isso foi Urian Agria de Souza. A partir do momento que uma história chega até mim, tudo em volta começa a fazer sentido, passa a ser cenário e então começo a compor cenas e personagens durante o dia a dia nas minhas idas e vindas das aulas para casa, trajeto que faço a pé, de carro e de metrô. As ilustrações para O acordeão vermelho de Katia Gilaberte que saiu pela Caleidoscópio Edições, foram compostas a partir de rascunhos que fiz das pessoas que vi nessas travessias, muitas delas viraram moradores do vilarejo do enredo. Desenho e fotografo muito durante as férias em cidades históricas, florestas, lajeados, praias e cachoeiras. Desenho ainda nas reuniões de professores nas instituições que dou aulas e reunindo esse banco de imagens bem diverso com as pesquisas específicas sobre o tema do livro, começo as artes na mesa da sala.

A música tem influência direta ou indireta sobre o seu modo de desenhar? Desenha ouvindo música?
L: Amo ilustrar ouvindo música. A história de Marinela, da Editora ZIT foi toda ilustrada ao som da cantoria de Elomar, Geraldo Azevedo, Vital Farias e Xangai que, inclusive, foi inspiração pra criação de um personagem da história. Já o livro Adivinha quem foi o miolo do boi, de Wilson Marques para a Editora do Brasil, foi composto ao som das Toadas do Sotaque de Pindaré dos Bois do Maranhão.

Existem ilustrações que deram errado? Como são? 
L: Sim! Durante o processo de criação têm ilustrações que dão certo, que dão errado e todas me ensinam muito, mas no livro impresso entram as que dão certo. Teve uma ilustração que quase saiu errada e tive a sorte de perceber a tempo. A história do livro Cordel do Chico Rei, de Sandra Lopes, Editora ZIT é sobre Galanga, Rei do Congo, que veio escravizado para o Brasil, em Vila Rica foi rebatizado com o nome de Francisco, e em seguida passou a ser chamado de Chico Rei. Numa passagem da história, Chico Rei participa da construção da Igreja de Santa Efigênia. Identificando a luz que se aproximava desse momento representei o sol a brilhar no céu da liberdade. Foi aí que descobri que nesse período ele ainda estava sendo escravizado e os mutirões de construção aconteciam sempre durante a noite. Pedi mais dois dias para a editora e corri para corrigir o erro histórico.

André Breton dizia que as palavras "fazem amor", o que podemos dizer das imagens com as palavras? São amigas? Namoram? Brigam muito? 
L: A imaginação é soberana e as ilustrações geram caminhos para fazer fluir a imaginação dos leitores. Ilustrações e textos formam juntos uma imagem que é a coroação de uma história num livro. As imagens podem ser contrastantes e complementares ao texto, são instigantes quando revelam as ideias sugeridas pelo texto a partir de novos pontos de vista.

Existem textos impossíveis de serem ilustrados? 
L: Ainda não senti essa impossibilidade, mas trabalhei duro para ilustrar um conto indígena no Livro Era uma vez na floresta de Maria Inês do Espírito Santo, Escrita Fina Edições em que um jabuti conversava com as fezes secas de uma anta, e depois conversava com uma mais fresca e depois com uma recém feita por ela! Já estava decidida que não faria um cocô evidente e humanizado quando veio a ideia de ilustrar a terra e o tempo como personagens da história o que me permitiu apresentar o cocô camuflado na imagem. Quando contei sobre esse meu apuro para a escritora ela riu à beça, dos três contos desse livro esse é o conto que mais intriga as crianças!!!

A Luciana faz os desenhos todos de maneira tradicional ou usa alguma ferramenta digital?
L: Tenho desenhado, pintado, bordado e recortado papéis para realizar ilustrações, em vários projetos concluí as ilustras no computador para corrigir algumas cenas ou para completá-las inserindo elementos fotografados. Cordel das cavalhadas de Sandra Lopes, da Editora Escrita Fina, foi todo feito com recortes de papéis brancos e no computador as figuras ganharam as cores da tradição: dourado e vermelho para os Mouros e Prata e azul para os Cristãos. As ilustrações do livro Adivinha quem foi o miolo do boi, da Editora do Brasil, foram feitas a partir de pintura e bordado, cada bordado foi fotografado e inserido digitalmente nas pinturas.

Você ilustrou inúmeros livros infanto-juvenis que abordam a cultura popular brasileira. Poderia falar um pouco sobre os desafios e os processos que esse tipo de projeto envolve?
L: Para ilustrar as histórias que abordam manifestações da cultura popular eu pesquiso muito. Cordel das Cavalhadas, por exemplo, foi todo ilustrado a partir das observações das fotografias que a escritora registrou da festa realizada por membros da sua família. Tive oportunidade de representar a mãe, os primos e a realidade se misturou com a fantasia. Adivinha quem foi o miolo do boi foi significativo pra mim porque participo de um grupo que brinca Boi no Rio do Janeiro e já tinha muitas experiências vividas através dos encontros com Mestres brincantes. O escritor maranhense me perguntou como, sendo eu uma carioca, consegui representar a festa de maneira verdadeira, respeitosa e envolvente.

Qual a importância da ilustração para a cultura brasileira contemporânea?
L: É importante que as histórias sejam contadas, sejam conhecidas e reconhecidas. É bonito que filhos saibam sobre os contextos culturais dos pais, dos avós, da criação do mundo e isso acontece nos terreiros da cultura viva e festiva do Brasil, mas as narrativas ilustradas também podem ajudar na missão de perpetuar o sentimento de pertencimento. Cascudinho o peixe contador de histórias, de José Bessa, publicado pela Editora do Brasil ,apresenta histórias do início dos tempos e dos tempos atuais através das aventuras dos peixes, entre elas, no engarrafamento da piracema e na viagem da cobra canoa pelas sábias e profundas correntezas dos rios da bacia amazônica. Nesse projeto escolhi representar as imagens de forma gráfica inspirada nas gravuras da arte popular. As linguagens vão se entremeando pra constituir e reafirmar a identidade brasileira.

 Se pudesse definir em poucas palavras o seu trabalho, como definiria?
L: Desenhando e ensinando, continuo aprendendo.

 Poderia citar algumas e alguns ilustradores contemporâneos que admira?
L: André Neves, Peter Sis, Roger Mello, Ciça Fittipaldi, André Côrtes, Renato Alarcão, Suzy Lee, Rui de Oliveira, Nelson Cruz, Marilda Castanho, Mariana Massarani, Graça Lima, Elma, Eva Furnari, Alcy, Denilson Baniwa, Marcelo Pimentel, Joana Penna, Michel Ocelot, Ziraldo, Fernando Vilela, Jesus Gabán, Anabella López, Odilon Moraes, Beatriz Aurora…

Existe diferença crucial ou determinante entre ilustrar para adultos e para crianças?
L: Acabo de participar da Bienal Internacional de Ilustração de Bratislava, na Eslováquia, e acompanhei a surpresa de todos quando o júri infantil escolheu as ilustrações em preto e branco de Svetozár Kosicky. Todos se surpreenderam porque justamente aquelas imagens não eram nem coloridas e nem “infantis”. Curiosamente, antes de viajar perguntei a minha filha de 11 anos em que estilo eu deveria desenvolver as ilustrações de um texto juvenil que acabara de receber, ela disse que deveria ser o mesmo que usei em Com vagareza e com espanto de Edna Bueno da Escrita, publicado pela Fina Edições. Vi que as opiniões dessas crianças estavam afinadas e considero que o que as encanta na representação é a possibilidade de ver além. Rui de Oliveira é quem diz que se há uma floresta na ilustração, estejamos certos de que as crianças leitoras desejarão passar por trás das árvores porque o olhar das crianças tem pernas, o olhar das crianças tem asas. Sinto que a diferença crucial ou determinante entre ilustrar para adultos e para crianças está nas referências culturais do leitor adulto ou da criança leitora que conseguimos alcançar com as imagens.

Vivemos um momento político marcado pelo conservadorismo e pela vigilância moral no campo da literatura e das artes. Qual o desafio para as ilustradoras brasileiras neste momento? 
L: Sejamos ainda mais poéticos nas mensagens e sejamos muito corajosos e perseverantes nas produções, porque não só já vemos limitações à conteúdos como já sentimos o desinvestimento na área cultural dificultando o desenvolvimento de projetos no mercado editorial. No mais, confio numa citação presente no livro Cascudinho o peixe contador de histórias: “Se eu conto histórias todo o tempo, eu não vou desaparecer”.

 

Luciana Grether Carvalho é carioca, ilustradora e professora de design da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Entre 2001 e 2002 realizou 100 ilustrações para o Jornal do Brasil. Ilustrou também a Abertura da novela Joia Rara, da Rede Globo. Participou da FLIP de 2014 como ilustradora convidada e da Bienal Internacional de Ilustração de Bratislava. Ministrou oficinas de ilustração em diversas semanas literárias em escolas, em unidades do SESC, FLIST e Biblioteca Parque. Ilustrou mais de trinta livros, entre eles Cordel das Cavalhadas (Escrita Fina, 2012), Marinela (ZIT, 2017) e Cascudinho: o peixe contador de histórias (Editora do Brasil, 2019).

 

 

 

 


TORVELIM | Todos os direitos reservados © 2019 | contato@torvelim.com.br