O gato malhado e a andorinha Sinhá: uma história de amor

O gato malhado e a andorinha Sinhá: uma história de amor
Autor: Jorge Amado
Ilustrações de Carybé
Posfácio de Tatiana Belinky e João Jorge Amado
Editora: Companhia das Letrinhas
São Paulo: 2008
Número de páginas: 120


Jorge Amado das crianças
Por Márcia Rios da Silva

 

Querem saber por que às vezes a manhã, esse pedaço de tempo do nosso dia, custa a passar? Quando parece que ela está se arrastando, atrasando o relógio, nos pedindo para ficar na rede, ou largados no chão, vendo a chuva cair ou assistindo ao sol brilhar? Pois então, em momentos assim, a manhã está flertando com o vento, uma paixão secreta, assim nos conta o narrador de uma linda história de amor d’O gato malhado e a andorinha Sinhá, escrita por Jorge Amado em 1948.

Tudo começa na madrugada, diz o narrador, quando o vento vem para ajudar a manhã na sua árdua tarefa de esquentar o sol – soprar as brasas, fazer crescer o fogaréu –, ela que antes, delicada, já cuidou de apagar com um beijo cada estrela da constelação. Enamorada do vento, rei dos andarilhos que arrasta um pesado alforje de histórias, a manhã se entrega ao seu falatório. Ouve dele casos engraçados ou tristes, pouco se importando, ambos, se a essa altura galos e relógios estão desorientados.

Dentre os muitos casos, o vento lhe conta uma história de amor vivida pelo gato malhado e a andorinha Sinhá. A história foi inventada por Jorge Amado, que, por sua vez, se inspirou na trova de um poeta popular, Estevão da Escuna, estabelecido no Mercado das Sete Portas, na velha cidade da Bahia, também conhecida como Salvador. Assim recitava esse trovador:

“O mundo só vai prestar
para nele se viver
no dia em que a gente ver
um gato maltês casar
com uma alegre andorinha
saindo os dois a voar
o noivo e sua noivinha
dom gato e dona andorinha”.

Na lavra de Jorge Amado, esses versos se transformaram em fábula, oferenda de aniversário ao seu filho João Jorge quando este completava um ano de idade. Ao ser publicada muitos anos depois, a edição dessa história de um amor “impossível” ganhou uma primorosa ilustração com os desenhos de Carybé.

Se a experiência do amor parece nos exigir uma prova que só o tempo pode nos impor, assim, a história de amor entre o gato malhado e a andorinha Sinhá atravessa as quatro estações: primavera, verão, outono e inverno. Em cada uma delas, acompanhamos o esplendor e as oscilações de um sentimento. Nessa travessia, o gato malhado e a andorinha Sinhá vivenciam, cada um ao seu modo, os arroubos do coração, como também enfrentam a hostilidade dos habitantes do parque em que vivem.

Trata-se de um amor impossível pois, desde que o mundo é mundo, aves e felinos são inimigos, em radical diferença. Mas, para que uma história seja bonita e valha a pena ser contada, a lei há que ser transgredida, e, nessa fábula de Jorge Amado, é a lei das andorinhas! Bela, admirada, Sinhá era disciplinada, frequentava a escola dos pássaros, lá frequentava até aula de religião. Mas também era “louquinha”, assim conta o narrador, pois não se intimidava com o que lhe ensinaram sobre os gatos: devoradores de aves, razão pela qual a comunidade dos bichos os tinha como rivais.

Escondida no alto de uma árvore, andorinha Sinhá gostava de observar um gato malhado, “feioso”, morador do parque. Ficava intrigada ao vê-lo “caladão, orgulhoso e metido a besta”, o que a leva a provocá-lo, até o dia em que a primavera atravessou o coração desse felino, arrebatado pelo canto da ave. Antes sisudo, agora sorri, tornara-se terno, chegando a escrever um “soneto do amor impossível”, cujos versos foram desqualificados pelo sapo-caruru, um crítico literário severo, afirma o narrador, insensível às dores do amor.

E assim, na estação da primavera, começa uma história de amor impossível, uma fábula que nos arrebata para dar prova de que é o fracasso não é onde tudo termina. E por isso também desejamos reeditar e reler a história do gato malhado e da andorinha Sinhá. O que a narrativa pede? Que nos entreguemos ao vagar do tempo, à chegada do vento, ao sabor do seu ritmo, para também tecermos nossas histórias.

 

Marcia Rios da Silva é professora de Teoria da Literatura da Universidade do Estado da Bahia.


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