Construindo livros de família em família

por Paula Delecave

 

Como seria fazer livros de família em família? Foi isso que perguntei a mim mesma quando criei a oficina Nós somos árvores. Essa oficina reúne algumas coisas de que gosto muito: livro, desenho, colagem e família.

Será que a ideia surgiu pelo fato de eu estar morando longe da minha família? Sou brasileira mas desde 2017 vivo em Lisboa, Portugal. Ou será que o fato de viver agora longe do Rio de Janeiro tenha feito com que eu perceba como é forte a ligação que mantenho com a casa da minha família, aquele sobrado de Botafogo, construído em 1894, onde ficava a biblioteca do meu avô Antonio e que me fez amar os livros. Descobri assim que família é uma palavra elástica que pode tomar a forma que o amor quiser e que sobrevive mesmo à grandes distâncias.

Sou ilustradora, uso a colagem para ilustrar livros e sempre gostei das fotos de família. Posso dizer que sou uma espécie de guardiã dessas fotos. Guardiã por ter sob meus cuidados as fotos da família dos meus avós paternos, Elisa e Antonio (inclusive trouxe uma pasta com muitas delas para Lisboa) e por usar esse arquivo fotográfico em diversos trabalhos que faço (como por exemplo um livro que está sendo impresso, todo ilustrado com fotomontagens de fotos de anónimos aliadas à fotos da minha família). Daí a ideia de uma oficina de construção de livros que fosse feita em família.

 

 

No início da oficina mostro aos participantes o livro que fiz da minha família. Nele há autorretratos meus, dos meus pais (minha mãe desenhou ela mesma quando menina e hoje em dia, com 70 anos de idade!), autorretratos da filha do meu namorado e também retratos que cada membro da família fez dos outros. Há um retrato da família inteira feito pela Miranda. No meu livro de família há também retratos escritos, são acrósticos feitos com o meu nome, acróstico é uma composição poética que brinca com as letras de uma palavra ou de um nome. Assim, para cada letra do meu nome associo uma palavra que me representa e aí criou um retrato que não é uma imagem visual, mas uma imagem textual. E há também dentro do livro um desenho-jogo bacana, um "desenho esquisito”, importado da prática criativa que os surrealistas chamavam de “cadáveres esquisitos" (cadavre exquis, em francês) onde, em um papel com várias dobras, cada membro da família faz uma parte do desenho sem que o outro olhe, deixando apenas traços pistas para que o próximo continue. Ao desdobrar o papel, o desenho esquisito da família aparece.

Ofereço às famílias um kit para a criação do seu livro, são folhas em branco para os desenharem retratos visuais e escritos, e outras folhas onde estão impressas perguntas: Qual comida, lugar, animal, música vocês seriam? Há também uma folha de papel onde imprimi uma árvore genealógica com lacunas e vazios a serem preenchidos com os nomes de seus membros.

Então, à volta da mesa com lápis, pilots, papéis coloridos, cola, tintas, esponjas e pincéis, as famílias começam a criar seus auto-retratos, retratos e desenhos esquisitos. No final da oficina as crianças fazem a pintura em stencil da capa. Depois pintam e decoram a capa cada uma à sua maneira. Juntamos todas as folhas e por cima e por baixo colocamos, capa e contracapa, passando para as unir, um cordel. Finalizo com uma roda, onde cada família mostra seu livro. Um livro de memória daquela família naquele momento - quais eram os seus gostos, as suas brincadeiras, o traço de cada criança.

Dar espaço, compartilhar, responder junto mas não em uníssono, porque nem todos os membros da família têm uma mesma visão da família ou as mesmas respostas sobre gostos e preferências. Por exemplo, para responderem que animal a família seria, já vi soluções criativas de mais de uma família: juntar animais de que cada um gostava e criarem um novo animal, fruto da fusão de todos esses outros (pegando uma sílaba de cada palavra de cada animal). Já vi árvores de família que incluíam nomes de gatos e cachorros, e outras onde, nos lugares onde a princípio iriam escritos os nomes, uma menina de 4 anos que, por não saber escrever, inventou o seu modo, com incentivo dos pais: desenhar uma imagem sintética para cada pessoa ou animal que compusesse essa família, no meu entender, uma espécie de hieróglifo. Tudo vale para ajudar a construir essa árvore-livro.

Já ofereci essa oficina em lugares bem diferentes: no Templo da Poesia (Oeiras), na Hipopómatos da Lua (Sintra) como no Brasil, no Museu do Amanhã (Rio de Janeiro).

e na Biblioteca Parque de Niterói e, ao cabo, parece que pode ser descrita como um espaço de liberdade e criação que reúne as famílias num exercício de reinvenção da sua memória, história, onde é possível redescobrir os laços entre aquelas pessoas mais próximas e as que já não estão conosco.

E, antes de terminar, uma das coisas que me chama muito a atenção nas oficinas é a dedicação com que pais, mães, tios, avós realizam o seu próprio desenho, ou autorretrato. Quem sabe os adultos não andam precisando mesmo de mais horas assim?

 

Sou carioca. Sempre fiz colagens. Desde pequena. Minha intimidade com a tesoura foi se dando nas várias horas de recorte de revistas. Por onde vou, coleto papéis, embalagens, tecidos, etc. Acho que sou uma espécie de guardiã das fotos de família, objetos dos antepassados, cadernos antigos da minha avó, agendas de telefone, bilhetes, plantas. Gosto dos traços da memória. E gosto dos dadaístas e dos surrealistas. Gosto da Hannah Hoch. A colagem faz parte da minha vida, seja nas ilustrações que faço para uma revista de ciências para crianças, seja nos livros que já ilustrei: Que Aventura ser Matilde (coleção Meninos especiais, texto de Rui Zink, ed. ONG Pais-em-Rede, Lisboa), Quando João ficou sem palavras (editora Memória Visual, Rio de Janeiro).


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