Thaisa Burani

Thaisa Burani é formada em Comunicação Social pela ECA - USP e atua como editora de literatura para a infância.


Como você se tornou editora de livros infantis?
Meu primeiro contato profissional com a literatura infantil foi há dez anos, na Jogo de Amarelinha, uma produtora editorial que trabalhava como terceirizada para editoras grandes, como a Saraiva, a Disal e a DCL. Eu vinha dos livros acadêmicos e foi um choque entender como esse universo da LIJ funcionava, trabalhar com aquelas cifras imensas (ainda na época das vacas gordas de PNBE e PNLD), fazer impressão à distância na China e, no caso dos didáticos, coordenar equipes com dezenas de pessoas em colaboração externa. Eram livros bastante “comerciais”, por assim dizer, o que foi uma experiência fundamental para eu entender como o coração da indústria funcionava. Fora que a Jogo pertencia ao Leonardo Chianca e a Márcia Leite, ambos autores e editores premiados, então esse contato direto e diário com eles também me ensinou muito, pois conversávamos o tempo todo não só sobre o mercado, mas também sobre educação, literatura, infância. Quando saí de lá, recebi um convite da Ivana Jinkings para retornar à Boitempo, onde eu tinha estagiado anos antes. Com o passar dos meses, fomos acalentando a ideia de criar um selo infantil. Já era um sonho da Ivana estender a Boitempo a um público mais jovem e, depois de quase um ano de pesquisas, estudos e muita conversa, na virada de 2015 para 2016 nasceu o Boitatá, através da coleção Livros para o Amanhã. Nesses quase quatro anos de vida do selo, o que acho interessante destacar é que vivi praticamente num ambiente de trabalho totalmente distinto daquele experimentado na Jogo de Amarelinha: sem programa de governo, sem cifras gigantes, com uma equipe mais do que enxuta, tendo que inventar formas de sobrevivência em meio a selvageria do mercado, falando diretamente com o público para entendê-lo melhor. O desafio foi criar um selo financeiramente autônomo e sustentável desde o começo, e era preciso fazer isso respeitando a identidade e a qualidade que o público da Boitempo exige

Como foi o processo de elaboração e execução dos livros O Capital para crianças, adaptação do livro de Karl Marx assinada pelos catalães Joan Riera e Liliana Fortuny, e O rato e a montanha, de Antonio Gramsci ilustrado por Laia Domènech, este último recentemente lançado pelo selo Boitatá?
Os dois livros são traduções, então não foram criações nossas. Mas conversando com os editores originais consegui descobrir algumas coisas.
O Capital para crianças foi ideia do editor catalão Joan Riera, que assina o texto. Foi ele que chamou a Liliana para ilustrar e depois publicou o livro por sua própria editora, a Els Llums. À época do lançamento, ele fez a seguinte declaração: “Eu sou muito otimista e acredito nas crianças. Podemos sim apresentar a elas conceitos complexos. Se utilizamos a linguagem delas, são capazes de entender ideias verdadeiramente difíceis”.
Chegamos ao livro fazendo prospecção online mesmo, que é quando o editor tira umas horas do dia para fazer pesquisa de mercado. Estávamos às vésperas de 2018, ano em que se comemoraram os duzentos anos de nascimento de Karl Marx, e pensávamos que seria muito bacana levar algo de Marx para crianças. Aí bateu aquela dúvida: será que já não existe? E de fato, lá estava ele, recém lançado na Catalunha. Daí seguiram-se os procedimentos padrão: pedimos o original para avaliar, achamos bacana, negociamos os valores e tocamos os processos editoriais de praxe, de tradução, diagramação etc.
Com O rato e a montanha a história foi parecida. Quem fez a ponte entre nós e a editora original foi um colega de profissão que tinha gostado muito do livro, mas sabia que um livro assinado por Gramsci não teria chance alguma na editora onde ele trabalha. Assim ele se dispôs a nos colocar em contato com o editor Jesús Ortíz, proprietário da espanhola Milrazones, que por sua vez nos contou que ficou emocionado com o pedido de Gramsci, encarcerado, à sua mulher Giulia, de que contasse aos filhos uma história oral de seu povoado natal. Numa carta de 1931, Gramsci descreve o conto em linhas gerais para a esposa pedindo a ela que reconte a história com as próprias palavras. É muito inspirador pensar na potência que é um editor estrangeiro, décadas depois, deparar-se com esse pedido íntimo e resolver realizá-lo. Mais do que o Gramsci intelectual, estamos falando de um pai que estava preso porque lutava por um mundo mais livre e igualitário, e que tentava, com os poucos meios de que dispunha, plantar nos filhos essa sensibilidade através da literatura. Poder transformar esse desejo em algo belo e concreto como um livro é de uma potência que me enche de esperança.

Qual seria o principal desafio de editar livros infantis de autores tão importantes para o pensamento político contemporâneo e para os movimentos sociais?
Acho que são muitos, mas o que mais me assusta é o risco de publicar um livro convencional, estéril, que esteja apenas papagaiando conceitos de maneira simplista, sem conseguir criar uma rua de mão dupla com o leitor. Acho bastante complicada a noção de que um livro tem a obrigação de ensinar alguma coisa. Acho que a literatura pode assumir essa função sim, de tutora dos leitores, mas não dá para se limitar a isso. Como editores, não podemos perder o contato com o lúdico, com o encantamento, com a poesia.
Uma pessoa, independentemente da idade, só irá desenvolver um pensamento político e emancipatório se ela ou ele for de fato um sujeito politizado e emancipado. É preciso encontrar meios de desalienar a sensibilidade, isso passa pela questão da liberdade, essa liberdade precisa ser alimentada e buscada todos os dias, seja através da arte, da música, da literatura, meios de expressão que transcendem o utilitário.

No livro de Marx os desenhos dialogam um pouco com a estética contemporânea dos cartoons, já o livro de Gramsci traz imagens mais oníricas, delicadas. Poderia comentá-las?
Sei pouco sobre o processo de elaboração das ilustrações, mas li numa entrevista com a ilustradora de O rato e a montanha, Laia Domènech, que ela foi fisgada pelo editor quando ele lhe ligou propondo um trabalho e leu, pelo telefone mesmo, a tal da carta em que Gramsci conta a história do ratinho para a esposa, pedindo a ela que a recontasse aos filhos. E que o que se passou, a partir daí, foram semanas em que ela, Laia Domènech, em seu ateliê, dedicou-se incansavelmente em fazer e refazer as pinturas que ilustram o livro, sentindo-se, como ela mesma declarou, o próprio ratinho tentando escalar uma montanha imensa. Aliás, antes disso tudo, ela conta que a primeira coisa que fez foi comprar um ratinho de brinquedo e colocá-lo sob um livro aberto sobre uma mesa, como se fosse uma pequena cabana para o rato, para só então começar os esboços. Acho muito bonito como ela foi feliz nesse processo, desde o formato vertical do livro, que implica uma escalada, até a cartela de cores, que parte de cinzas tristes e vai se ensolarando com o retorno do verde.
Do Capitalzinho, infelizmente não tive acesso a esse bastidor, mas me parece bastante coerente a ideia do editor de explicar Marx para crianças valendo-se de uma estética mais cartunesca e acessível. É como se as ilustrações ajudassem a dizer: não é um bicho de sete cabeças, você também pode entender. Porque a ideia do livro ilustrado é justamente essa, a de que a narrativa visual se some à narrativa textual. Elas precisam se entrecruzar e, nesse momento, o editor precisa estar muito consciente das escolhas que estão sendo feitas, porque desse encontro precisa sair uma espécie de casamento.

Como você vê a relação entre infância e política hoje? Qual seria o papel dos editores de literatura infantil diante de temas como opressão, exploração, revolução e emancipação?
Como editora – e como editora que pensa política para a infância – meu norte vai ser sempre a formação do imaginário. Acho válido usar a literatura para “explicar coisas”, mas sinceramente isso me importa pouco. Isso vem com o tempo, e acho que cabe mais aos pais e educadores entenderem em que momento explicar esta ou aquela questão será adequado na vida de cada criança. Claro que deve haver espaço para livros informativos no mercado que ajudem a introduzir conceitos, em alguma medida é o que o Boitatá se propõe a fazer. Mas me parece muito mais valioso alimentar narrativas e imaginários verdadeiramente empáticos, combativos e amorosos. Você pode até abordar o Capitalzinho como um livro que “serve para” explicar o que é o mais-valor, que é um conceito fundamental na obra de Marx. Mas, a meu ver, o que esse livro tem de mais bacana é conseguir contar uma história inspiradora com final feliz sobre trabalhadores que se unem por uma reinvindicação justa.
O rato e a montanha talvez seja ainda mais bem-sucedido nessa passagem ao literário: em nenhum momento aparece nele uma explicação acerca dos conceitos e ideias desenvolvidos por Gramsci. Na verdade, se não houvesse o nome de Gramsci na capa, ninguém ou quase ninguém desconfiaria que o livro era dele. Mas ali, nessa fábula aparentemente singela e simples, estão condensados uma série de valores e crenças desse pensador: os horrores da guerra e da destruição ambiental, o triunfo que vem graças à cooperação mútua de pessoas comuns, tão insignificantes quanto aquele ratinho, mas que juntas mostram a força da coletividade. Esse é o ponto. Como editores, somos capazes de plantar essas sementes na imaginação das crianças ou estamos apenas reproduzindo discursos racionais de práticas revolucionárias nos moldes da percepção adulta?
Veja os homens adultos de hoje: muitos deles vão defender discursos de igualdade de gênero e concordar que obviamente uma mulher pode fazer o que ela quiser, mas no dia a dia é bastante provável que não deixem o filho brincar de boneca ou recriminem uma mãe que saiu para beber com as amigas. E por que isso acontece? Porque o imaginário deles é machista. Porque cresceram num universo cultural em que mulheres não passavam de troféus a serem exibidos, em que pessoas não-brancas simplesmente não existiam ou existiam apenas em condições subalternizadas, ou cruelmente estereotipadas, um ambiente em que homossexuais serviam apenas de gatilho para piadas grosseiras, desumanas. Haja desconstrução e anos de estudo para lidar com isso, não é?
As crianças de hoje, por outro lado, possuem acesso a um volume de informação e de cultura muito mais amplo, o que é absolutamente formidável e sem precedentes na história. São crianças que já cresceram em contato com as telas e que podem não apenas consumir mas também criar conteúdo, compartilhá-lo e debater virtualmente qualquer pessoa. Por um lado, isso me parece maravilhoso, pois elas possuem ferramentas de intervenção muito mais poderosas do que as que nós tivemos, mas precisamos sempre nos lembrar que há um preço alto a pagar por essas ferramentas disponíveis. Ou seja, a infância de hoje está exposta a riscos que não nos afetaram e que, portanto, ainda não conhecemos bem. Não falo apenas de segurança digital ou das fake news, mas também do excesso de estímulo mental e dos males psíquicos causados pelas redes sociais, que afetam a autoestima e a percepção da realidade. Nesse sentido, me parece que cabe a nós estarmos mais atentos e mais presentes para ajudá-las ou orientá-las nesse processo, incentivando mas ao mesmo tempo protegendo quando necessário. E uma forma de fazer isso é criar uma biblioteca rica e diversa, de livros que conseguem ir além do mero informar ou entreter, carregados de poética, de sensorialidade. Fomentar a educação estética de uma criança é por si só um ato revolucionário, porque a arte também emancipa.

Como foi a recepção desses dois livros no Brasil?  
O Capitalzinho esgotou ainda na semana de pré-venda. Imagine, 4 mil exemplares vendidos em uma semana antes mesmo de o livro alcançar fisicamente as livrarias. Foi uma surpresa até para as nossas projeções mais otimistas. Nem sei dizer quantas vezes a Boitempo já o reimprimiu, acho que é o best-seller do selo. Então a aceitação foi muito grande, mas é claro que o rechaço foi proporcional. Esse mesmo livrinho, ainda em seu primeiro ano de vida, foi parar num vídeo com milhões de visualizações feito pelo Luciano Hang da Havan. A cena era mais ou menos assim: com a vitória de Jair Bolsonaro nas urnas, Hang preparou um “enterro do comunismo”, colocando dramaticamente num caixão vários “símbolos” do comunismo. E o Capitalzinho estava lá, acabou incinerado ao lado de outros itens “perigosos”. Confesso que esse foi um dos meus maiores orgulhos editoriais, mas é claro que isso também se reverteu em ameaças por todos os lados, xingamentos, aquele horror virtual todo. O mais grave foi um telefonema de um sujeito que nos ameaçava dizendo pra gente “se preparar” porque ele sabia onde ficava a editora e iria lá “metralhar” todos nós. Ou seja, uma ameaça séria de atentado terrorista, né? Não vou dizer que não tivemos medo, mas estranhamente também veio a clara sensação de que estávamos no caminho certo. Porque de fato estamos incomodando.
Com o livro de Gramsci, como o lançamento é muito recente, ainda estamos na fase gostosa, do abraço da crítica, da receptividade sempre incrível e calorosa dos nossos pares e dos leitores. Mas sabemos o quão sensacionalista pode soar “editora comunista publica livro de Gramsci para crianças”, então acredito que muito em breve a caixa de mensagens voltará a pular com os gritos odiosos da turba ensandecida dos bolsonaristas.

Existe alguma diferença fundamental entre editar livros para adultos e livros infantis?
Existem muitas diferenças “técnicas”, claro: as etapas e os tempos de produção são diversos, os textos são mais curtos, as ilustrações e a materialidade exigem maior cuidado gráfico. Mas fundamentalmente falando, diria que a principal diferença é que a edição do livro para a infância exige do editor um exercício muito maior de alteridade e de escuta. Porque quando o seu leitor é adulto, de certa forma você está falando com você mesmo, com os seus pares. Quer dizer, é muito improvável que um editor de ciências políticas não seja ele próprio um grande interessado em ciências políticas, porque afinal de contas (pelo menos idealmente falando) ele precisa acompanhar esse segmento muito de perto, ter contato com o que está sendo produzido, estar ciente dos debates em torno do tema, etc. Agora, quando você edita para a infância, ainda que obviamente você também já tenha sido criança, você está editando para uma infância que não te pertence, que não é a sua, portanto você precisa escutar, tentar se colocar no lugar desse Outro para entender. O que é ser criança hoje? O que move essas crianças, pelo que elas se interessam? Então não basta pesquisar o mercado ou acompanhar os seus colegas de profissão, que de certa forma também são uma bolha intelectual. Você precisa ir lá e assistir ao filme do My Little Pony, assistir ao Felipe Neto no YouTube, entender o que é essa Galinha Pintadinha, a Maísa, passear na PBKids, na Kidzania, nos eventos do Gloob, enfim. Acho que fundamentalmente tem que ter essa entrega, sem pré-julgamentos, primeiro para entender, pra depois pensar em como você vai se inserir e intervir nesse universo e o que vai propor como diferença aí. 

Que livros te inspiram como editora e por quê?
Os clássicos, sempre. Retorno constantemente a alguns deles: Charlotte’s Web, The Grinch, Good Night Moon, The Very Hungry Caterpillar… Acho fascinante a universalidade que essas narrativas alcançaram, o quanto foram capazes de transpassar seus próprios limites físicos e temporais e continuam e vão continuar encantando por décadas gerações de crianças, em qualquer lugar. E. B. White defendia que tudo o que ele sempre quis dizer com a literatura era o quanto ele amava o mundo, e no fim acredito que um clássico se torne um clássico justamente quanto atinge esse nível de simplicidade. São tão humanos que falam com todos.


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