O rato e a montanha

O RATO E A MONTANHA
Autor: Antonio Gramsci
Ilustradora: Laia Domènech
Editora: Boitempo
Selo: Boitatá
São Paulo, 2019
Número de páginas: 44
Tradução: Luiz Sérgio Henriques e Thaisa Bura


O rato e a máquina do mundo
Por Laura Erber

 

Às vezes um livro nos fisga de tal modo que, em vez de comentá-lo, temos vontade de escrever aos amigos pedindo que o leiam também.

Não é fácil escrever sobre esta fábula, que enlaça as lutas de hoje às lutas de ontem e de todos os tempos em que lutar foi um ato decisivo de sobrevivência. O pequeno álbum ilustrado conta uma história transportada ao longo do tempo de boca em boca, de ouvido em ouvido, como um objeto valioso que se deve transmitir para proteger.

Um antigo ditado diz que a montanha pariu um rato; é algo que os adultos gostam de dizer quando preferem expressar com imagens que depois de uma enorme expectativa e um grande esforço surgiu apenas algo bem insignificante e indigno. Mas não são poucas as fábulas, ficções e desenhos animados em que o rato deixa de ser sinônimo de pequenez e insignificância e se revela um animalzinho danado e inteligente, pronto a realizar tarefas de que animais muito maiores e imponentes não seriam capazes. É assim com o ratinho da bela história recontada por Antonio Gramsci e graciosamente desenhada por Laia Domènech, que o selo Boitatá publica agora no Brasil para nossa alegria e deleite.

Nesta história, a montanha não pare um rato, ela escuta o seu arrependimento e considera o seu pedido aflito. Tudo começa com sede e fome. Um ratinho bebe o leite destinado a um menino. De manhã, ao perceber que não há leite em sua jarra, a criança chora. O ratinho se arrepende e sai em busca de um reparo.

Em vez de voltar-se para a comoção e a dor, a historinha do rato em busca de leite desvela o intrincado das causas e das consequências da destruição, até o ponto zero da explicação da escassez de leite e da dificuldade de alimentar o menino. Para ter leite é preciso que a cabrinha coma capim, e para haver capim é preciso água, para ter água é preciso ir até a fonte, e lá o rato descobre que a guerra destruiu o caminho das águas e que o pedreiro não tem pedras. E assim, sucessivamente, segue o ratinho incansável até o encontro com a montanha rochosa.

Gramsci expõe a complexidade do mundo ao redor do menino mostrando, em sua concretude, o tecido de relações e nexos geralmente invisíveis para nós. Esclarece como um estrago feito em algum ponto mais distante dessa cadeia de ações pode ter consequências dramáticas lá adiante.

Sem perder o vínculo com a criança a quem foi destinado, o livro dá testemunho de uma visão profundamente crítica do mundo e de seu funcionamento. Através da busca do ratinho, o autor lança um olhar indignado sobre a dimensão desigual e destrutiva do progresso industrial e das guerras que o alimentam.

Antonio Gramsci nasceu em 1891 na pequena Ales, cidade insular da Sardenha, no sul da Itália. Sua infância e adolescência coincidem com o primeiro grande desenvolvimento industrial italiano.

Antonio era o quarto de sete irmãos; a situação precária da família levou-o a começar a trabalhar aos 11 anos de idade. Seu pai foi preso por peculato envolvendo uma pequena soma, e a mãe viu-se obrigada a criar os filhos enfrentando grandes dificuldades. Apesar de todos os obstáculos, Gramsci era excelente aluno; em 1911 recebeu um prêmio literário que lhe permitiu deixar a Sardenha e ingressar na Universidade de Turim, mas não chegou a concluir os estudos por falta de condições financeiras.

Antonio Gramsci passou grande parte da vida na prisão; ali escreveu alguns de seus textos mais importantes. Os Cadernos do cárcere reúnem 2848 páginas de notas manuscritas. Preso pelo regime fascista de Mussolini em novembro de 1926, só obteve a liberdade definitiva tarde demais, pouco antes de morrer, em 1937. Seu primeiro filho com Julia Schucht, Delio, chegou a conviver com ele durante um ano. Na prisão, Gramsci escrevia inúmeras cartas aos dois filhos, Delio e Giuliano, que viviam com a mãe em Moscou. As cartas para os meninos são um material precioso e atestam seu desejo de construir através delas a relação familiar que nunca puderam desfrutar.

Foi durante o período no cárcere que Gramsci, desejando transmitir algo importante a seu filho Delio, teve a ideia de pedir à esposa que recontasse ao garoto uma fábula originária de sua cidadezinha natal. Como o próprio autor afirma na carta reproduzida ao fim do livro editado pelo Boitatá, trata-se de “uma história típica de uma região devastada pelo desmatamento”.

A montanha e o rato toca os leitores contemporâneos pela delicadeza do narrar e precisão fabulatória, sem para isso abandonar as posições teóricas e as visões políticas do autor. Gramsci mostra que a literatura e as formas narrativas populares podem ser um espaço poderoso para a revelação do funcionamento do mundo em que nos tocou viver. A fábula do rato arrependido em busca de leite para um menino faminto pode ser lida também como a concretização literária de suas percepções críticas mais vitais.  

 

LAURA ERBER nasceu no Rio de Janeiro em 1979. É escritora, artista visual e professora. Dirige a Zazie Edições e o site Torvelim.


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