Pinóquio: O livro das pequenas verdades

Pinóquio: O Livro das Pequenas Verdades
Autor e ilustrador: Alexandre Rampazo
Editora: Boitatá
São Paulo, 2019
Número de páginas: 32


Uma declaração de amor a Pinóquio
Por Fabíola Farias

 

Como muitas das histórias que povoam nossas memórias de infância, Pinóquio é um personagem onipresente. Para boa parte das crianças brasileiras, o boneco de madeira foi apresentado pelos desenhos de Walt Disney ou pelas narrativas de Monteiro Lobato, em livros ou episódios televisivos. Outras encontraram Pinóquio, quase sempre acompanhado apenas por Gepeto e pelo Grilo Falante, em edições populares, publicadas em versões adaptadas e muito reduzidas da história escrita por Carlo Collodi. Poucas tiveram acesso ao texto integral. A maioria, é certo, conhece o personagem exclusivamente por sua fama de mentiroso, desvinculada de suas aventuras.

O crescimento e o fortalecimento do mercado editorial brasileiro, especialmente nos últimos vinte anos, incentivaram a difusão da história de Pinóquio entre nós. Hoje contamos com número significativo de edições de As aventuras de Pinóquio à disposição dos leitores, muitas delas em bibliotecas escolares e públicas, adquiridas por programas governamentais de formação de acervos.

Se a crítica há muito se deu conta do irreverente boneco de madeira, dedicando estudos à narrativa criada por Collodi, são mais recentes as reinvenções do personagem no Brasil. Para além das adaptações e das reescritas que narram as histórias de Pinóquio, estão as experiências de reinvenção da obra, de leituras que se põem em movimento. Parece ser esse o caso de Pinóquio: o livro das pequenas verdades, de Alexandre Rampazo, publicado pela editora Boitatá.

O livro de Rampazo é feito de palavras e imagens, em uma escrita híbrida que se oferece ao leitor como narrativa única, no mesmo tempo de ler e ver. Diferente do Pinóquio de Collodi (e absolutamente diverso do menino alegre e brejeiro desenhado por Walt Disney, exaustivamente reproduzido em livros e filmes), este se apresenta mais intimista, em imagens, verbais e visuais, que convidam o leitor a extrapolar sua existência de boneco, partilhando sua desejada vida de menino. Uma declaração de amor ao universo de Pinóquio, o espelhamento proposto pelo autor aponta para a procura de um outro que em exercício de humanidade busca a bondade e a justiça de Gepeto, a inteligência e a responsabilidade do Grilo Falante, o controle do mestre de marionetes, a esperteza e a astúcia do Senhor Raposo, as artimanhas do Senhor Gato, a tranquilidade do burrinho, a força do tubarão gigante e o amoroso poder da Fada Azul, mas encontra a si mesmo.

É em sua existência de madeira-árvore-boneco-menino-sonho – “o que foi, o que é, e o que poderá ser...” – que o Pinóquio de Alexandre Rampazo se inscreve. O olhar triste e amedrontado, estranho ao personagem de Collodi, se investe de curiosidade, recusa, desconfiança, dúvida e possibilidades no encontro imaginado com os outros. O nariz deste Pinóquio, como ele feito de madeira, não denuncia mentiras contadas, mas sim caminhos e matéria que ora o constituem, ora se apresentam como horizonte.

Imaginando como seria se fosse uma árvore que sonhava, Pinóquio se realizou menino, no sonho da árvore e na concretude de sua essência, em uma proposta que se coloca materialmente no livro: seu nariz cresce, como galho de árvore, em páginas que se desdobram em forma de sanfona, apontando para uma caminhada cujo trajeto está marcado por desvios, pausas e possibilidades de seguir em frente. O espelho, que antes refletia seu encontro com os outros, volta-se para si mesmo.

O projeto gráfico primoroso faz com que todos os elementos do livro convirjam para a narrativa de Pinóquio: o livro das pequenas verdades. Nada falta, nada sobra neste livro para leitores de todas as idades, que nos convida a saber um pouco sobre quem somos e a imaginar quem podemos ser, esse convite que a literatura insiste em nos fazer.

 

Fabíola Farias é graduada em Letras, mestre e doutora em Ciência da Informação pela Universidade Federal de Minas Gerais, com pós-doutorado em Educação pela Universidade Federal do Oeste do Pará. É leitora-votante da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.


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