Pintando o sete com Hélio Oiticica

Andreas Valentin

 

– Hélio, o que devo pintar?
– Eu é que sei?? Inventa, Andreas!

Esse diálogo aconteceu em 1959, quando eu tinha seis anos de idade e começava a ter aulas de pintura com Hélio Oiticica. Uma vez por semana, ele vinha até minha casa, sentava-se comigo numa grande mesa em meu quarto e me ensinava a fazer arte. Hélio jamais me disse o que fazer. Ele apontava caminhos e – o mais importante – apresentava técnicas. Foi assim que aprendi a pintar com tinta a óleo e guache; a fazer colagens utilizando objetos encontrados, como páginas de revistas antigas, caixas de pasta de dentes, pedaços de tijolos e pedras; e até mesmo a preparar minhas próprias tintas com pigmentos industriais, terra, areia e cola branca. No meu aniversário ele me dava livros que me introduziram no universo da história da arte e dos artistas, do Renascimento à modernidade.

Figura 1: Andreas Valentin, s.t., 1961; 45 × 30 cm, óleo sobre cartolina.

 (Figura 1: Andreas Valentin, s.t., 1961; 45 × 30 cm, óleo sobre cartolina).

(Figura 2: Andreas Valentin, s.t., 1960; 45 × 30 cm, colagem sobre cartolina).

 

Reflito hoje sobre essas “aulas” – na verdade, trocas e diálogos entre uma criança e um jovem artista. Nossos encontros foram, possivelmente, mais um campo de experimentação da própria obra do artista e de suas ideias pedagógicas. Em 1957, Hélio, seu irmão César, Aloísio Carvão e outros artistas ajudaram o mestre Ivan Serpa a implantar o Instituto de Arte Infantil, uma escola de arte no Méier, bairro da zona norte do Rio de Janeiro. E, naquele mesmo ano de 1959, em que eu iniciava meus estudos de arte com Hélio, ele começava sua participação no Grupo Neoconcreto, a convite de Ferreira Gullar e Lygia Clark. Instaurava-se ali a experimentação na arte brasileira, cujas práticas apontavam para uma “dinâmica de laboratório”, onde a troca de informações “se tornava fluente e ocorria num plano afetivo” (Ronaldo Brito. Neoconcretismo. Cosac Naify, 1999). No Manifesto neoconcreto, explicitou-se que “a obra de arte supera o mecanismo material sobre o qual repousa” (Manifesto neoconcreto. Trecho citado no livro Ensaios fundamentais: artes plásticas, organizado por Sergio Cohn. Beco do Azougue, 2010).

Seriam os experimentos que realizei sob a supervisão de Hélio Oiticica, talvez, um desdobramento dessas práticas neoconcretas? Sempre me estimulando a experimentar, ele sugeriu, por exemplo, que eu buscasse em nosso sítio em Teresópolis terra de diversas cores e areia, que depois foram peneiradas e misturadas com cola à base de PVA. Aplicadas nas telas, resultaram em obras nas quais formas e cores advinham da materialidade bruta dos elementos naturais. Em outubro de 2009, um incêndio consumiu parte do acervo na reserva técnica do Projeto Hélio Oiticica, no Rio de Janeiro, onde estavam abrigadas obras dos Oiticica (José, Hélio e César), além de inúmeros quadros meus que eu havia dado a Hélio ou que, após sua morte, guardei lá. Referindo-se a uma pintura dessa série que estava guardada no acervo do Projeto H.O., Irene Small afirma que “os tamanhos irregulares e a composição impura das partículas de pigmentos proporcionam ao quadro uma textura altamente granular”. E complementa: “Primordiais para uma aula sobre os princípios da arte não representacional, elementos do mundo foram concretamente ‘inventados’ como a substância real do trabalho, em vez de reproduzidos mimeticamente” (Irene Small. Folding the Frame. The University of Chicago Press, 2016; tradução nossa).

(Figura 3: Andreas Valentin, s.t., 1962; 65,5 × 54 cm, terra, pigmento e cola PVA sobre tela).

Figura 4: Andreas Valentin em vários momentos de suas aulas com Hélio Oiticica.

 

Em 1966, fui morar com meus pais em Bangkok, Tailândia. minha mãe, Judy Valentin, da mesma forma como estimulara as aulas com Hélio, lá também procurou um artista jovem e de vanguarda para me orientar. Durante quatro anos, aos sábados, eu ia até o ateliê de Sumpow Depphlatum – uma linda casa tipicamente tailandesa escondida no final de um beco. Ali, já adolescente, incorporei novas ideias, práticas artísticas e principalmente a cultura e os hábitos orientais.

Durante esse período, mantive o contato com Hélio. Trocávamos cartas, e nas minhas viagens ao Rio eu o visitava em sua casa. Em julho de 1968, ele escreveu um texto de duas páginas datilografadas intitulado “Andreas Valentin”, no qual refletia sobre sua experiência de ensino de arte e o desenvolvimento de uma criança para o ingresso na fase adulta: “Enganam-se os que pensam que dar-se às crianças tinta para pintar ou papel para cortar e colar ou massa para esculpir, ou instrumentos para tocar, seja para torná-los ‘gênios’ no futuro. A começar de que o conceito de gênio tornou-se obsoleto: todos podem ser gênios, têm a potencialidade para tal – este conceito foi criado para hierarquizar o que deveria ser privilégio coletivo: isolar o gênio, que seria o modelo de uma sociedade feudalista na origem. O tempo passou. Hoje, procura-se uma coletivização das experiências outrora reservadas aos eleitos, e nada melhor do que começá-las com o próprio crescimento numa idade quando tudo começa, cresce. Andreas Valentin foi um dos inúmeros alunos que vi crescerem, talvez o único que eu tenha acompanhado tão de perto. Desde os seis anos, quando mal sabia pegar no pincel, sua pintura cresce, devagar, mas tão real nela mesma que muitos dos seus frutos infantis chamam atenção. [...] o que procurei foi dar-lhe oportunidade: colar, pintar, principalmente experimentar. O que se verificou foi uma crescente ascensão experimental no seu “fazer artístico”, por assim dizer. [...] não interessa que deixe ou não de pintar: a criação tem maneiras de se manifestar. Isto quis eu conscientemente lhe incutir: aprender a ver, a sentir, a experimentar. Crianças não revolucionam: crescem” [Itaú Cultural, Projeto Hélio Oiticica].

E eu, claro, também cresci. Em 1970, fui cursar a universidade na Filadélfia, costa leste dos Estados Unidos. Hélio havia ganhado uma bolsa Guggenheim de pesquisa artística e se instalara em Nova York num pequeno apartamento na Segunda Avenida, no East Village, entre as ruas 4 e 5, uma área bastante degradada da cidade. Sempre que possível, nos fins de semana e feriados, eu ia visitá-lo naquele espaço que ele chamava de Loft 4 – Babylonests. Ali, nos reconectamos e retomamos nossas trocas, encontros e invenções. Realizamos juntos filmes em super-8 e séries fotográficas; íamos ao cinema e a shows de rock. O Loft, sempre cheio de gente, respirava criação.

Em 1974, voltei para o Brasil. Continuamos conectados, por meio de extensas cartas e longos telefonemas internacionais. Mesmo a distância, desenvolvemos alguns trabalhos juntos, como a proposta para a obra Call me Helium, que, em parceria também com meu irmão Thomas Valentin, pretendia ser uma homenagem no Rio de Janeiro ao nosso amigo em Nova York: um grande balão vermelho inflável seria içado na praia de Ipanema, e performances aconteceriam de acordo com proposições enviadas por Hélio. Esse projeto só se concretizou em 2014.

Figura 6: Andreas Valentin, Thomas Valentin, Hélio Oiticica. Call me Helium. Praia de Ipanema, 2014. Fotografia de Andreas Valentin.

 

Hélio retornou em 1978, e até sua morte trágica e prematura, dois anos depois, continuamos amigos e parceiros de invenção. Participei ativamente de seu movimentado cotidiano, encontrando-o com frequência para fotografar obras e auxiliar em tarefas diversas, como buscar pedaços de asfalto na obra do metrô no Rio de Janeiro, ir à praia da Barra coletar areia branca para montar o piso de maquetes ou apenas conversar e trocar ideias.


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