Odyr Bernardi

Odyr Bernardi é o desenhista de Copacabana, com roteiro de Lobo, Guadalupe, com roteiro de Angélica Freitas e A Revolução dos Bichos, a partir da obra de George Orwell. Participou das coletâneas Irmãos Grimm em Quadrinhos, Dias Negros (Argentina) e MSP 50. Publicou quadrinhos e ilustrações na Folha de São Paulo, O Globo, Le Monde Diplomatique Brasil, Público (Portugal). No momento se dedica principalmente à pintura.


Quem é o Odyr Bernardi? 
Um ser humano que desenha, pinta, lê e escreve.

Você se lembra de você mesmo desenhando na infância?
Desde sempre. Tive muita sorte: meu pai tinha uma papelaria. Cresci brincando entre montanhas de papel e nunca me faltaram materiais. Desenhava todo o tempo, às vezes em livros, devo dizer, que arrastava pela casa antes de saber ler: já amava como objetos.

Qual foi o primeiro livro que ilustrou?
Na verdade ilustrei poucos livros, meu negócio mesmo é fazer quadrinhos. Meu primeiro livro se chama Copacabana mas infelizmente não é pra crianças. Meu segundo se chama Guadalupe e pessoas de qualquer idade podem ler. Na verdade me parece que a cada livro meus leitores ficam mais jovens.

As imagens que o Odyr cria vêm dos sonhos, do pensamento, da memória ou da observação? 
Vem da observação, não sou bom de inventar, mas sou bom de olhar e prestar atenção. Para A Revolução dos Bichos, tive que pesquisar bicho por bicho: ninguém sabe desenhar tudo. A gente sabe desenhar o que sabe desenhar, o que está acostumado a desenhar. O resto tem que aprender. E aprender felizmente não termina nunca.

Algum projeto que gostaria de realizar e não teve ainda a chance ou o tempo?
Muitos. Ainda quero fazer um livro para crianças pequenas, um livro quase que só de figuras – um livro onde as figuras contam a história, tanto ou mais que as palavras.

Por falar em tempo, como é o tempo do desenhar, ilustrar, imaginar imagens? 
É um tempo onde o tempo passa diferente, toda criança que desenha sabe disso. Um tempo onde você não sente o tempo passar.

A música tem influência sobre o seu modo de produzir imagens? 
Sim, sim – tanto o desenho quanto a pintura tem um ritmo. Mas no desenho se pensa mais, o sujeito tem que estar mais concentrado – então desenho em silêncio e pinto com música.

Existem ilustrações que deram errado?
A maior parte do meus desenhos dão errado. Depois dão certo. Dar errado é uma maneira de descobrir como fazer dar certo coisas que você não sabia fazer. No final, a única coisa realmente errada num desenho é se você não acredita nele. Aí está errado mesmo, ainda que pareça certo. Se parece errado, mas você sente que está certo, está certo.

André Breton dizia que as palavras "fazem amor", o que podemos dizer das imagens com as palavras? São amigas? Namoram? Brigam muito? 
Elas dizem e pensam coisas diferentes mas se dão bem.

Existem textos impossíveis de se ilustrar?
Sim. Tem textos que são realmente feitos de palavras, em que a beleza deles está na maneira precisa em que uma palavra é colocada do lado da outra, como tijolinhos e isso é mais importante que a história que se conta. E são independentes e orgulhosos e dão conta sozinhos e não precisam de desenho nenhum, muito obrigado.

Sobre técnicas de desenhar: você faz todos os desenhos de maneira tradicional ou usa alguma ferramenta digital? 
Quanto mais longe do computador, melhor. Gosto de tinta, de papel, de fazer a ponta do lápis, apagar, mover o pincel.

Poderia citar algumas e alguns ilustradores contemporâneos que admira?
Gosto desse senhor inglês chamado David Hockney, que faz as mais lindas florestas. De um sujeito chamado Fábio Zimbres, que venceu na vida porque consegue desenhar como criança até hoje.

É muito diferente ilustrar para adultos e ilustrar para crianças? 
Quero crer que nenhuma. Confesso aqui que acho que o pessoal às vezes acha que tem muita diferença e exagera na fofura e acho que não precisa.

Qual foi o maior desafio de ilustrar A Revolução dos Bichos de George Orwell? 
É uma história dura. Gostaria que acabasse melhor. Sofri um pouco com as coisas dando errado pros bichos. Mas tive que mostrar o que o sujeito que escreveu queria que eu mostrasse. É uma história importante.

Vivemos um momento político ultraconservador que incentiva atos de censura no campo da literatura e das artes. Quais as implicações disso para os ilustradores brasileiros neste momento? 
Me faz querer criar mais beleza, mais conforto, mais alegria, em um mundo com cada vez mais feiura.


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