Zazie no metrô

Autor: Raymond Queneau
Editora: Cosac e Naify
São Paulo, 2009
Número de páginas: 188
Tradução: Paulo Werneck


ZAZIE, ALICE E OUTRAS MENINAS
por Adriana Armony

 

Zazie foi a última das meninas da literatura que conheci. Encantadora, a cabeça inquieta e a língua terrivelmente afiada. Imagino-a numa sala com Alice, de Lewis Carroll, e Raquel, a garota da bolsa amarela, de Lygia Bojunga Nunes. Mais tarde, e com dor, viriam as jovens Silene e Engraçadinha, de Nelson Rodrigues, e Lolita, de Nabokov, que perderam a meninice de forma brutal. Algumas dessas personagens foram escritas por mulheres, outras por homens, mas reconheço em todas elas algo que me recorda (me traz de volta ao coração) a menina que fui, que ainda sou.


Essas meninas surgem em histórias muitas vezes estranhas, chamadas de romances de formação, que narram o percurso de uma personagem que amadurece e evolui ao fim das experiências. Assim, Alice, depois de cair no buraco do coelho e encontrar criaturas fantásticas, como a rainha de copas e Humpty Dumpty, acorda debaixo de uma árvore e volta para casa com a irmã, levando consigo o segredo de sua aventura. Raquel também tem uma espécie de lugar subterrâneo só seu: a bolsa em que esconde suas vontades – ser grande, ser menino, ser escritora. No fim, as vontades explodem para fora da bolsa, e Raquel entende quem realmente quer ser. Já Zazie, a heroína do livro de Raymond Queneau, tenta sem sucesso entrar no metrô de Paris, sendo impedida por causa de uma greve.


Zazie no metrô causou grande sensação na época de sua publicação, em 1959, tornando o autor extremamente popular. Um ano depois, o livro seria transformado em filme por Louis Malle. Zazie fascinava a todos por sua espontaneidade e graça. Tão graciosa quanto engraçada, principalmente na maneira de se expressar, a primeira palavra que a menina diz no livro é Doukipudonktan, que na ótima tradução de Paulo Werneck virou “Dondekevemtantofedô”. Para quem não sabe, o cheiro da cidade não é lá uma grande qualidade de Paris... Insolente, a menina costuma responder aos adultos na lata. Quando o chofer Charles a instiga a responder a uma pergunta, por exemplo, ela retruca: “Você cansa a minha beleza” e “O senhor tem medo de mulher, hein?”. Zazie não tem papas na língua, é ousada e sabe o que quer. Nelson Rodrigues diria: “Amoral como um bichinho de avenca”. Ela lembra uma outra personagem, a boneca Emília, de Monteiro Lobato, com sua famosa “torneirinha de asneiras”. Atrevidas e desbocadas, ao contrário do que se costuma esperar de uma menina, Zazie e Emília perturbam também porque suas bobagens são muitas vezes mais verdadeiras que as explicações razoáveis da realidade.

Emília é uma boneca de pano que, mesmo costurada e recosturada, não vai crescer. Já Zazie não será a mesma depois de sua aventura. Ela é uma menina da província que vai excepcionalmente a Paris com um sonho: andar de metrô. Para conseguir o que quer, foge do apartamento dos tios, conhece um estranho de intenções duvidosas, vai até a Torre Eiffel de táxi, encontra um grupo de turistas estrangeiros que acompanha até a catedral de Sainte-Chapelle. Seu tio Gabriel acaba revelando que ele é uma dançarina de cabaré, e todos vão assistir ao seu espetáculo, terminando a noite em meio a uma briga de bar. Quando finalmente termina a greve e Zazie consegue andar de metrô, está tão cansada que passa a viagem até a Gare d’Austerlitz... dormindo!

Como Alice, Zazie ao despertar está de volta ao seio da família. O mergulho em outros mundos transforma as duas personagens, e ambas voltam à normalidade do lar ao mesmo tempo iguais e diferentes. Respondendo às perguntas da mãe, Zazie constata: “Envelheci”. A partir daí certamente começará outra história, outras histórias. Mas a menina ficou ali, no perfume das páginas do livro, que a faz renascer cada vez que o abrimos.

 

Adriana Armony é escritora, doutora em Literatura Comparada pela UFRJ e professora de Português e Literaturas do Colégio Pedro II. Publicou os romances A fome de Nelson (Record, 2005); Judite no país do futuro (Record, 2008); Estranhos no aquário (Record, 2012), premiado com a bolsa de criação literária da Petrobras; e A feira (7Letras, 2017). Atualmente realiza pesquisa pós-doutoral sobre a escritora Pagu e sua temporada em Paris.


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