O menino no alto da montanha

Autor: John Boyne
Editora: Seguinte
São Paulo, 2016
Número de páginas: 232
Tradução: Henrique de Breia e Szolnoky


As duas vidas de Pierrot
Por Aurora Lanari

 

Pierrot tinha quase quatro anos mas já entendia, mesmo com certa dificuldade, algo que pessoas bem mais velhas e com mais experiência não entendiam. Ele sabia que quando seu pai, que lutou durante a Primeira Guerra Mundial, acordava no meio da noite, gritando, não devia fazer nenhuma pergunta, apenas fingir que continuava dormindo e deixar sua mãe cuidar da questão. Também sabia que, por mais que morresse de curiosidade, não devia insistir sobre a razão de sua tia Beatrix estar presente em histórias antigas, da época em que seus pais se conheceram, mas nunca aparecer nos jantares e festas que eles organizavam ocasionalmente. Quando seus pais começavam a discutir sobre os vizinhos, sobre política, sobre como deviam ensinar o filho (seguindo os valores franceses, como queria sua mãe, ou alemães, como queria seu pai), e principalmente sobre a quantidade de dinheiro gasto pelo pai de Pierrot em vinho, era nesse momento que ele sabia que devia ficar bem quietinho, no quarto dele, e só sair mais tarde, para consolar sua mãe e pedir ajuda à vizinha e amiga, Madame Bronstein, para cuidar dos machucados feitos pelo pai. 
                                                      
O menino no alto da montanha é o segundo livro de John Boyne que eu li. O primeiro, chamado O menino do pijama listrado, foi uma leitura importante pra mim. Acho que foi meu primeiro livro sobre a Segunda Guerra Mundial, lido quando eu tinha uns oito anos. Ele me chocou, como chocaria qualquer menina de oito anos lendo um livro desses. Este aqui, que li vários anos depois, não foi diferente. Com decisões e mudanças inesperadas na narrativa, este livro surpreende o leitor inúmeras vezes.

Quando Pierrot faz sete anos, as coisas em sua casa melhoram um pouco, mas logo mudam de novo. Morando agora apenas com sua mãe, Pierrot passa suas tardes após a escola no restaurante onde ela trabalha, brincando com seu vizinho e amigo de desde que eles nasceram, Anshel. As coisas parecem correr bem, até que, no dia do aniversário de sua mãe, ela passa mal e tem um ataque de tosse. Ela diz que era apenas uma infecção na garganta, mas no seu lenço havia três pontinhos de sangue. Dali até a sua morte, o tempo passa rapidamente. Sem nenhum parente próximo vivo, já que o seu pai havia morrido no trajeto para sua cidade natal na Alemanha, Pierrot se vê em um orfanato, completamente sozinho e rodeado de crianças que não têm nada a ver com ele.

Pouco tempo depois de chegar ao orfanato, mas tempo suficiente para criar amizades e inimizades, uma carta chega para Pierrot. Escrita por sua tia Beatrix, outrora tão misteriosa, avisava que ele iria morar com ela, num casarão em que ela trabalhava, em uma cidadezinha alemã na encosta de uma montanha. Chegando lá, o choque cultural foi bem grande: seu nome de repente muda de Pierrot para Pieter, suas roupas são queimadas, ele é obrigado a vestir roupas tradicionais alemães e a usar um novo corte de cabelo. E, claro, ele não podia mais falar francês na casa, apenas alemão. Por maior que fosse toda essa mudança, Pierrot, agora Pieter, se adapta rapidamente. Regras básicas que ele tinha de cumprir, como fazer silêncio sempre que o dono da casa estava presente ou estar sempre com a aparência impecável, no começo eram bem irritantes, mas logo se tornam parte da rotina dele. Os anos passam, Pieter cresce e agora, no final da infância e no começo da adolescência, o dono da casa cria um grande laço afetivo com o menino, que segue cada regrinha. Como não tem filhos, ele o trata e o cria como um, claro, sempre sendo muito rígido. Quanto mais próximos os dois ficam, e quanto mais Pieter cresce, mais ele fica ciente da situação política no país e sua visão sobre todos os acontecimentos fica cada vez mais parecida com a do dono da casa e cada vez menos semelhante com a inocência daquele menino parisiense que um dia ele fora, e de todas as suas lembranças da vida com sua mãe.

O menino no alto da montanha é um livro muito diferente de todos os outros livros que já li e que também se passam durante a Segunda Guerra Mundial. O leitor acompanha toda a mudança pessoal do narrador e dos elementos à sua volta, e em diversos momentos somos pegos totalmente de surpresa. O epílogo do livro é realmente genial. Quando chegamos mais perto do encerramento da história, muitos finais possíveis passam pela cabeça de quem está lendo, mas o fim escolhido pelo autor é muito inesperado. Mais uma vez, John Boyne escreveu um livro que mexe muito com a gente. O menino no alto da montanha e O menino do pijama listrado são ao mesmo tempo muito diferentes mas muito parecidos, assim como Pierrot e Pieter.

 

Meu nome é AURORA LANARI e tenho 14 anos. Gosto muito de ler e vejo muitos livros bons por aí que não têm o reconhecimento que merecem. Então escrever sobre eles pode ser interessante, e talvez ajude outros leitores que estão a procura de novas leituras. Além de ler, adoro cozinhar e assistir séries. 


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