A bolsa amarela

Autora: Lígia Bojunga Nunes
Ilustrações: Marie Louise Nery
Editora Agir
Rio de Janeiro, 1976
Número de páginas: 135


A imaginação resiste dentro da bolsa amarela
Por Ana Chiara

 

A criança excede os parâmetros da vida adulta por uma comovente capacidade imaginativa. Está mais próxima dos caminhos da analogia e do pensamento poético, que extrapolam nossa capacidade racional empírica. Todos que tiveram infância conhecem a força da vontade que enche os pequenos corações de sonhos, invenções, fantasias, imagens projetadas. Para conquistar esse mundo alargado, a criança cria para si objetos mágicos, dotados de força capaz de subverter as leis da física ou da biologia, capazes de transcender o aqui e o agora. Uma caixa de papelão se transforma num carro ou numa casa; um sabugo de milho, num visconde ou num boizinho; uma chave, em objeto que lhe permite crescer ou diminuir de tamanho. Todos que já leram histórias dedicadas à infância ou à juventude, conhecem esses objetos “mágicos” que têm o poder de encher de coragem os medrosos, de força os fracos, de beleza os que se sentem feios. Tais objetos pertencem também ao mundo encantado das lendas, dos contos populares, da religião. Tanto o cálice sagrado do Amadis de Gaula como o muiraquitã que aparece nas lendas indígenas – retomadas por Mário de Andrade em Macunaíma – movem narrativas que pertencem a nossa tradição. Por meio dos objetos mágicos, o obstáculo da proibição ou do veto à imaginação é transposto de forma surpreendente e criativa.

É o caso do livro A bolsa amarela, de Lygia Bojunga Nunes, publicado pela primeira vez em 1976, com delicadas ilustrações de Marie Louise Nery. Nessa história, uma bolsa de segunda mão torna-se o condutor da narrativa e, por uma operação metafórica, uma espécie de HD externo da imaginação de Raquel, uma menina escritora. A voz de Raquel nos diz que ela, como a maioria das crianças, quer transformar suas vontades em realidades palpáveis: crescer (rápido), nascer garoto e escrever. Qualquer leitor mais atento perceberá que as vontades de Raquel nascem de restrições que lhe são impostas pelo contexto familiar e social: “Menina não faz isso” e “só quando você crescer” são frases que determinam a educação das meninas na sociedade em que cresce a nossa pequena. Os modelos vão se reproduzindo ao longo da história. Sensível ao ponto de vista da criança, a voz narrativa conduz de forma lúdica a tensão que envolve o núcleo dramático em que as vontades da menina esbarram na tradição educacional.

Desse conjunto de três vontades, extraem-se as forças que movem outras histórias, em encaixe, sob o comando poderoso do “delírio criativo”. É digno de nota o modo como Raquel se desloca pela língua extraindo dela jogos sonoros ou desautomatizando significados engessados. Um exemplo disso são as formulações de nomes em rimas. Pode-se afirmar, com Gilles Deleuze, que a menina é obrigada "a fabricar para si sua língua... Dir-se-ia que a língua é tomada por um delírio que a faz sair de seus próprios sulcos”. Ao se deslocar nos meandros da língua, atinge-se uma espécie de “lou-cura”, de forma que ao escritor-leitor se abre um caminho novo de compreensão do mundo caso ele consiga entrar e sair do mundo da ficção sem se fechar nele.

Para conseguir escrever e se pôr em contato com suas vontades, Raquel acolhe em sua (elástica) bolsa amarela: um galo que não quer mandar no galinheiro, outro cujo pensamento foi costurado para só querer brigar, um alfinete sem serventia, uma guarda-chuva escangalhada, assim mesmo, no feminino, por escolha. Dentro da bolsa, cujo fecho “encantado” obedece ao comando mental da menina, cresce o sentimento de solidariedade em um clima acolhedor das diferenças entre emoções difíceis (medo, isolamento, insegurança) transformadas em seres e coisas concretos.

A escrita funciona como catalisador de situações desafiadoras, nas quais o fraco, o menor e o desajeitado vão ganhando coragem para reverter seu destino. Esta parece ser a contrapartida que a vontade de escrever oferece a Raquel e, por conseguinte, àqueles que possam criar identificações com as personagens. Seus “romances”, como a “História de um galo de briga e de um carretel de linha forte”, funcionam como sutura para cicatrizes provocadas pela realidade cruel ou inóspita, injusta ou opressora. Se na vida “real” de Raquel o galo Terrível desaparece depois de uma disputa arrasadora na qual ao que tudo indica ele foi morto, na ficção escrita pela menina opera-se a mágica reconstituição dos fatos, dando ao terrível galinho de briga a possibilidade de questionar o que lhe foi imposto como destino para poder desfrutar uma vida mais sossegada: “Aí um dia, o barco chegou num lugar bem longe e Terrível desembarcou. Era lá que ele ia viver. Sossegado. Sem ter que ganhar de todo o mundo. Lá ele ia arranjar amigo e desenhar coração. E não ia ter dono nenhum costurando o pensamento dele”.

Duas situações exemplares são contrapostas no livro. Uma é a cena do almoço com Brunilda, a tia rica da família da Raquel. A situação beira o desastre, porque a menina em tudo é contrariada. Não gosta de bacalhau, tem de comer; exposta pelos parentes, é obrigada a defender-se do desrespeito que sofre por parte da tia e do primo mimado. Raquel tem de enfrentar a situação sozinha, pois seus pais e irmãos estão intimidados pela riqueza da parente. Mas outra cena familiar será em tudo oposta a essa. Trata-se do encontro de Raquel com a família da Casa dos Consertos. Não à toa, está situado num capítulo do livro intitulado “Comecei a pensar diferente”. Em busca de um conserto para a guarda-chuva, a menina topa com uma família em tudo diferente da sua. Nesta família, os papéis são permutáveis porque “assim ninguém se cansa”. Todos cozinham, todos arrumam a casa, todos consertam as coisas e, principalmente, todos gostam de estudar e aprender. Com eles Raquel aprende o sentido máximo da hospitalidade, como o filósofo Derrida a concebe, dádiva incondicional, aceitação do outro. A partir do encontro com uma família que valoriza cada membro de forma igualitária, Raquel percebe que o pensamento pode ser diferente. Isso abre um mundo de possibilidades para a menina, que passa a aceitar-se mais. Assim também as suas duas grandes vontades, a de ser menino e a de ser grande, vão desinflando dentro da bolsa. São os ritos de passagem que se atualizam e se dinamizam no acolhimento e aceitação do outro e da diferença dentro de si mesma.

Fortalecida, Raquel não precisa mais deixar escondidas dentro da bolsa amarela suas vontades. Também não precisará mais de um “objeto mágico” que transporte seu desejo de ser escritora. Escrever, criar histórias, esse foi seu modo de salvaguardar a imaginação infantil e seu espírito libertário. Por mais que o mundo a sua volta quisesse lhe “cortar as asinhas”, foi a literatura que permitiu a Raquel negociar com as imposições, transformando a fantasia em realidades palpáveis. A bolsa amarela impediu que a linguagem se submetesse à censura do outro, reorganizando o mundo interno de Raquel.

Em tempos de “pensamento costurado”, A bolsa amarela é um antídoto encantador e necessário.

 

Ana Chiara é professora de literatura brasileira da Uerj. Foi professora do Colégio São Vicente de Paulo (1980 a 1987) e do Colégio Pedro II/ Unidade Humaitá (1990 a 1995) e participante do projeto Proler (Fundação do Livro Infantojuvenil/ Biblioteca Nacional).


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