Cartas de uma girafa chamada José

Autora: Megumi Iwasa
Ilustradora: Jun Takabatake
Editora: Martins Fontes
São Paulo, 2014.
Número de páginas: 104
Tradução do inglês: Monica Stahel


Por favor, fale-me de você
Por Luiza Leite

 

José Girafa vive na savana. Sua vida transcorre sem sobressaltos, a acácia está cheia de folhas deliciosas e as nuvens no céu “parecem pompons de creme flutuando no ar”.
Sentindo-se solitário e entediado, José resolve escrever uma carta para alguém que lhe possa dar notícias dos lugares que sua vista não alcança. Como uma garrafa lançada ao mar, José escreve a um desconhecido.

Pite Pinguim vive no Cabo da Baleia. É a primeira vez que recebe uma carta de um bicho que nunca viu: “Sou José Girafa e moro na África. Sou conhecido pelo meu pescoço comprido”.

Pite não sabe o que é uma girafa. Também não faz ideia do que seja um pescoço. Se esbarrasse numa girafa, talvez a confundisse com a paisagem. Quem sabe uma árvore muito alta...

“Cartas de uma girafa chamada José”, de Megumi Iwasa, ilustrado por Jun Takabatake, é uma história adorável que nos diz algo sobre como percebemos e conhecemos o mundo ao nosso redor.

Precisamos das palavras para descrever o mundo. Entrar em contato com algo novo e surpreendente muda o nosso modo de perceber e dizer as coisas. Ampliamos, assim, os limites da nossa linguagem e também o que sabemos.

Por mais claras e objetivas que pareçam ser, as descrições que José Girafa e Pite Pinguim fazem de si, um ao outro, são lidas e compreendidas a partir da experiência de cada um deles, gerando uma gostosa confusão.

Pite diz que é preto e branco. José pensa numa zebra. Pite diz que tem bico. José acha que o amigo deve ser parecido com o entregador de cartas, Pérsio Pelicano. Pite diz que seu corpo todo talvez seja um pescoço. José pensa que isso tem a ver com a serpente que acaba de passar.

José toma uma decisão e escreve a Pite: “Resolvi me fazer ficar parecido com você”. Com a ajuda de Pérsio, ele fabrica para si um corpo de pinguim. Algo entre o pinguim descrito pelo amigo nas cartas e o pinguim de sua imaginação.

Para que sua imagem do que vem a ser um pinguim não se reduza a uma especulação teórica, ou etnocêntrica e autorreferente, José propõe um encontro. Conhecer o outro passa sempre também por um deslocamento de si. Abrir mão, ainda que momentaneamente, de um certo modo de ver e de ser visto.

José vai ao Cabo da Baleia. Vai vestido de pinguim, um pinguim engraçado, na verdade, não está nada parecido com um pinguim. Talvez esteja tão cômico como um antropólogo que tenta realizar pela primeira vez as tarefas e os rituais nos lugares onde faz pesquisa.

O riso provocado por essa tentativa de assumir outro ponto de vista é cúmplice e cheio de graça. O que importa é estar juntos. “Riram tanto que levaram um tempão para recuperar o fôlego. Os dois estavam tontos de alegria.”

Os desenhos delicados em nanquim, de Jun Takabatake, também fazem pensar em como as palavras são ao mesmo tempo específicas e inexatas. Quantos bicos cabem na palavra bico? Quantas asas cabem na palavra asa?

Respondemos aos desafios da existência de maneira singular. O que temos em comum, diz o antropólogo Roy Wagner, é sermos diferentes. As cartas de José e Pite oferecem lampejos bem-humorados que ativam essas questões, tão fascinantes.

 

Luiza Leite é pesquisadora e escritora. Tem mestrado em Antropologia pelo Museu Nacional - UFRJ e doutorado em Literatura pela UERJ. É também co-criadora da editora Fada inflada, dedicada à publicação de livros de imagem e texto para crianças dos 3 aos 103. 


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