Como se revoltar?

Autor: Patrick Boucheron
Editora 34
Coleção Fábula
São Paulo, 2018
Número de páginas: 64
Tradução: Cecília Ciscato


AS REVOLTAS DA HISTÓRIA
Por Rodrigo Turin

 

Os historiadores costumam ser representados como sujeitos meio esquisitos e carrancudos, que vivem fechados lendo livros mofados em bibliotecas pouco iluminadas. Não por acaso, uma das imagens mais usadas para ilustrar a profissão do historiador é um quadro de Carl Spitzweg, de 1850. A pintura leva o título Der Bücherwurm, que poderia ser traduzido como “rato de biblioteca”. Se você procurar essa imagem na internet, verá que ela mostra uma biblioteca mal iluminada, e dentro dela um senhor suspenso sobre uma escada. Ele segura com a mão esquerda um livro colado ao rosto, quase tocando o seu nariz, enquanto isso, na mão direita, embaixo do braço esquerdo e entre as pernas, ele tem três livros fragilmente equilibrados, esperando para serem consultados ou talvez já os tenha lido.


Essa imagem mostra o historiador como alguém bastante deslocado do tempo presente, com sua atenção toda voltada a um passado distante e esquecido em meio à poeira de livros e documentos que já quase ninguém mais lê. E é um pouco isso mesmo. Aquilo que ninguém mais lê, o historiador lê com atenção, lê demoradamente, como diz o historiador francês Patrick Boucheron nesse pequeno e saboroso livro traduzido para o português. O historiador se desloca do presente e talvez por isso exista o costume de também mostrá-lo como uma figura mais simpática, alguém distraído e desajeitado, que tem dificuldade de habitar com naturalidade o tempo e o espaço à sua volta. O historiador vive tropeçando no presente, por assim dizer.


Mas é importante lembrar que o historiador não é apenas alguém deslocado do presente, mas alguém que também pretende, por meio de seus tropeços, deslocar o presente. Isso, pelo menos, é o que sugere o historiador francês Patrick Boucheron em seu livro sobre o ato de se revoltar. A escrita da história e a revolta se apresentam ali como formas de tropeços no presente, atos que podem deslocar e modificar aquilo que nos cerca, abrindo futuros antes não imaginados. Perceber o passado como um meio de abertura de futuros, isso também é parte do trabalho do historiador.


Boucheron nos lembra a todo momento que está nos contando as histórias de revoltas não como um político ou um filósofo contaria, mas como historiador. Ele não pretende dizer como devemos nos revoltar, nem o que é a revolta em si mesma, mas apresenta aos leitores diferentes motivos pelas quais as pessoas se revoltam historicamente e diferentes formas de se revoltar. A Idade Média, essa época tão distante da gente – temporal e espacialmente –, ganha ali contornos imprevisíveis e coloridos. Em vez de uma época de trevas, obediência e credulidade, Boucheron nos fala de uma Idade Média viva, rebelde, que conversa com o nosso presente.


Como historiador, ele não deixa de desfazer algumas imagens que temos ou que gostaríamos de ter do passado. A fabulosa “cruzada das crianças” em direção aos lugares sagrados de Jerusalém se revela uma dessas peças que as palavras pregam na gente, quando somos levados a atribuir a elas sentidos que são muito mais próximos do nosso presente do que aqueles que elas tinham originalmente. As palavras mudam historicamente, e com elas mudamos o passado – ou, pelo menos, a imagem que construímos dele. Boucheron nos mostra, ainda, que nem toda revolta é um ato que busca instaurar um mundo mais justo, podendo também ser uma tentativa de atingir os interesses pessoais ou de reforçar a autoridade já existente. Mas se ele freia a nossa imaginação, lembrando a importância de ser desconfiado frente aos documentos e às imagens históricas que recebemos, não deixa também de liberar aquilo que o passado tem de imprevisível e de surpreendente.


Através de uma escuta cuidadosa dos documentos e dos livros, ele nos faz perceber os murmúrios e os ruídos das revoltas daqueles indivíduos que a história costuma esquecer: camponeses, artesãos, pequenos comerciantes, pessoas comuns. Para além dos príncipes, reis e dos cavaleiros aristocratas, ele resgata a voz e as emoções coletivas daqueles indivíduos de quem não sabemos mais os nomes, e sobre os quais sabemos bem pouca coisa, mas que também se rebelaram, que também fizeram história. As revoltas desses indivíduos emergem no nosso presente pela revolta do historiador contra o esquecimento dos personagens que não se enquadram entre os poderosos e os vitoriosos. Com esse livro, Boucheron nos lembra como estudar a história é, antes de tudo, um modo de apurar nossa sensibilidade para a vida dos outros, um exercício de empatia. “Vamos então nos aproximar lentamente e escutar”.

 

RODRIGO TURIN (Curitiba, 1979), é historiador, professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e coordenador do LETHE (Laboratório de Estudos em Teoria, Historicidade e Estética). Membro fundador da Sociedade Brasileira de Teoria da História e História da Historiografia, é autor de Tessituras do Tempo: discurso etnográfico e historicidade no Brasil oitocentista (EdUERJ, 2013)


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