A possibilidade de uma ilha

Schneider Carpeggiani

 

There’s a ship
The Black Freighter
With a skull on its masthead
Will be coming in

 Pirate Jane na voz de Nina Simone

 

 

O primeiro livro a marcar minha história de leitor não foi lido. Não foi exatamente lido, pois eu tinha entre cinco e seis anos nessa época. Mas foi tocado e imaginado com todo o fervor que a gente tem quando sabe (ou ao menos desconfia) que experiencia algo importante pela metade.

Meu pai era vendedor de livros, daqueles de porta em porta, seres impensáveis nos dias que correm, cheios de ofertas da Amazon e livrarias com cheiro de café italiano e luzes amareladas. Era um exemplar de bolso d’A ilha do tesouro, de Stevenson, que ficava guardado numa estante gigante, de madeira escura e pesada, no centro do quarto de minha tia.

A capa do livro era negra, e a cor vibrante se restringia aos personagens à frente da cena: três ou quatro marujos e um papagaio cercam um pirata vestido ao gosto dos rótulos de rum barato. Mas o que me fez começar a “ler” o livro, a partir do esforço de tentar vislumbrar o que essa imagem implicava, foi o crânio que o pirata segurava na mão, quase como uma lanterna.

Na época eu não tinha nem a mais vaga ideia de que um crânio era o resultado de um corpo decomposto. Mas sabia que um crânio era algo como a tal linha que não se deve atravessar. Havia crânios nos rótulos de veneno, nos sinais de perigo. Um crânio era o avesso e o contraponto demoníaco das imagens caridosas de santos que povoavam o imaginário católico da casa de minha família. Eu não sabia ler, mas alguém me disse que o título do livro era A ilha do tesouro. A compreensão do que aquelas palavras significavam acendeu uma faísca em minha cabeça que jamais se apagou.

A junção da palavra “ilha” (escrita numa fonte pomposa, com letras cheias de curvas, como os “The End” de filmes do tipo sessão da tarde) com aquele crânio-lanterna era a sugestão perfeita de escapatória para uma criança de cidade pequena. E quando falo de cidade pequena não me refiro ao cenário de campo e de brincadeiras infinitas ao ar livre. Pequena porque minúscula. Pequena porque parecia uma cela. A minha cela. Pequena porque o mais longe que eu conseguia enxergar na época era a imagem distante de uma rodovia vista da sala de casa. E a enxergava como alguém que assiste a um filme em looping. “Li” tanto a capa dessa edição de Stevenson que desenhava repetidamente esqueletos e ilhas com coqueiro e sol por cima.

Acho até que desenhar repetidamente aquela capa de A ilha do tesouro foi minha primeira “crítica” de uma obra.

Não me lembro de ter lido propriamente A ilha do tesouro quando comecei a ler, poucos anos depois. Mas será que precisava, depois de tanta companhia que essa edição me fez, depois de ela ter me ajudado imensamente a dilatar meu mundo quando a cidade pequena ficou ainda menor e o vaivém de carros da BR distante já não dava conta de ser meu cinema particular? Ah, não precisava mesmo.

A ilha de Stevenson me levou a outra: A ilha perdida, de Maria José Dupré.

Quem foi criança leitora no final dos anos 1980 teve o imaginário formado pela Série Vagalume. Tínhamos a coleção completa lá em casa – depois que meu pai parou de vender livros de porta em porta, as sobras ficaram conosco, amontoadas, espalhadas por todos os cômodos. A ilha perdida foi minha paixão aos nove anos. A imagem da capa, mais uma vez, decisiva: dois meninos ancorando um barquinho de madeira em uma praia. Reparem: duas crianças, um mundo livre de adultos e com outras regras. E, claro, a possibilidade de uma praia para ancorar.

Em férias numa fazenda, os dois (não fica claro na história se eram parentes ou apenas melhores amigos) desobedecem à regra de não navegar no rio (que coisa maravilhosa é ter um rio caudaloso no quintal!) e vão parar numa ilha misteriosa com alguns habitantes pouco amistosos. Ao contrário dos marujos e do crânio de Stevenson, Dupré oferecia uma possibilidade de aventura mais à mão. Se eu pudesse algum dia sair daquela cidade pequena, haveria uma ilha a ser explorada. Quando a gente é criança, sempre nos perguntam qual é a moral da história de um livro. O pequeno romance de Dupré não trazia moral, e sim uma promessa-fantasia: a possibilidade de uma ilha.

Decididamente, nossas leituras de infância criam uma lógica de interesse para as futuras paixões literárias. Do crânio de Stevenson para o rio Paraíba de Dupré; depois o “Crusoé na Inglaterra”, de Elizabeth Bishop; os fantasmas d’A invenção de Morel, de Bioy Casares; até o encontro de Ulisses com Circe... Como leitor, tenho desde o início pulado de ilha em ilha. Foi o que sempre quis.

 

Obs: Enquanto escrevia este texto, martelava na minha cabeça um trecho do “Crusoé na Inglaterra”:

Now I live here, another island,

that doesn’t seem like one, but who decides?

Obs 2: Tentei por várias vezes encontrar no Google a capa de minha mítica edição de Stevenson, sem sucesso algum. Sei que não guardei esse livro. Não sou bom de guardar coisas. Mas sei que ele existe.

 

SCHNEIDER CARPEGGIANI é crítico literário e editor do Suplemento Pernambuco.


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