Neuromancer

Autor: William Gibson
Editora: Aleph
São Paulo, 2016
Número de páginas: 320
Tradução: Fábio Fernandes


RECORDANDO FUTUROS

Por Pedro Kosovski

 

 

 

“Salto abrupto para dentro de outra carne.  A matrix sumiu, uma onda de som e de cor... Ela passando por uma rua lotada, passando por barracas vendendo softwares de desconto, preços escritos a caneta hidrográfica em folha de plástico, fragmentos de música vindos de infinitos alto-falantes. Cheiros de urina, monômeros livres, perfume, kill frito. Por alguns segundos assustadores, ele lutou sem conseguir evitar o impulso de controlar o corpo dela.  Depois, se forçou para assumir o estado de passividade, e tornou-se o passageiro atrás dos olhos dela."

 

          William Gibson

 

Há dois anos, próximo à rua da Bahia, Belo Horizonte, topei com uma placa fincada no passeio, mesmo design das placas de trânsito, fundo verde escuro e tipos brancos difundindo informação pouco útil ao tráfego: ESQUEÇA O FUTURO. Recentemente soube que não havia apenas uma, mas uma série delas, espalhadas por diversos pontos da cidade, muito provavelmente concebidas por um artista anônimo ou ainda hoje por mim desconhecido.  Naquela ocasião, poucas horas antes, estava às voltas com a leitura de uma palestra de Giorgio Agamben  intitulada  O que resta (2017) e que se iniciava justamente com um trocadilho do escritor Flaiano: “Tenho tanta desconfiança do futuro que faço projetos só para o passado.”

Aqui volto vinte e poucos anos no tempo, estamos perto da virada dos 2000 e tomo contato com Neuromancer, de William Gibson. Na época eu era apenas um leitor adolescente, eletrizado pela ideia de uma utopia cibernética em construção. A internet naquele momento estava em plena popularização e exibia ainda sua faceta mais experimental – se é que se pode dizer assim – e democrática. Estávamos sob o encanto das torrentes de compartilhamento gratuito de dados e, ao mesmo tempo, surgiam fortes debates acerca do estatuto da propriedade intelectual. Era dali que dava o meu salto abrupto para dentro do livro de Gibson: sensação libertária de viver o futuro em sua emergência. Me recordo, entretanto, das tonalidades cyberpunks de Gibson nublando utopias e, ao final do livro, a surpresa de saber que Neuromancer não havia sido escrito poucos anos antes como eu acreditava – envolvido que estava pela atualidade e realismo de suas descrições do ciberespaço – mas em 1983, ano do meu nascimento. O livro foi publicado no ano seguinte, rendendo a Gibson o prêmio Philip K. Dick de ficção científica. 

O enredo do livro gira em torno do protagonista Case, cowboy fora da lei, um dos melhores do sprawl, hacker mercenário, estelionatário junkie, que depois de passar seu ex-patrão para trás, teve seu “sistema nervoso danificado por uma microtoxina russa dos tempos da guerra”. O cowboy que então vivia uma fossa braba, e na constante fissura por drogas, entre impulsos suicidas e sob ameaça de acertos de conta que certamente o levariam à morte, é salvo por Molly Million. A serviço de um enigmático patrão, Molly alicia o solitário junkie-cowboy para uma nova missão de infiltração em troca de reparar seu sistema nervoso e devolver ao protagonista sua fruição pelo ciberespaço.

Ainda é possível reconhecer em Neuromancer um esforço imaginário que projeta na linguagem – e portanto constrói – uma complexa língua do futuro. Um futuro-passado, de 1983. Aqui revertendo o trocadilho de Flaiano: seria o caso de recordar esses futuros? Inventariar imagens de futuros passados? Imagens ousadas e fascinantes. Hoje em dia, uma série de streaming bastante popular projeta a imagem de um futuro que é um quase-agora, um futuro logo-ali-na-esquina que, pela extrema proximidade, funciona pra nós como espelho distópico. É possível também citar HQs que projetam sobre o nosso tempo colapsos-zumbis. No futuro quase-agora ou na escatologia zumbi, talvez não seja exagerado afirmar que, depois de Gibson, nos tornamos mais comedidos em nossos saltos projetivos sobre o futuro. O que nos freia?

Há vinte anos, recordo de um leitor eletrizado, menos pelo enredo do livro propriamente, e mais pela força inventiva de um vocabulário que funde biologia e tecnologia num livro que trazia expressões como overdrives terminais, biopadronagem, mícrons, extratos glandulares sintéticos, entre tantas outras. O deslumbre biotecnológico que cria na linguagem neologismos, a exemplo do próprio título Neuromancer, produz nos leitores a sensação de que as palavras podem se tornar verdadeiras protéses lexicais. Na releitura recente, me chamou a atenção um pensamento sobre a carne. A matéria carne. Citada incontáveis vezes ao longo do livro, Gibson quase não se refere ao corpo, mas, insiste sobre o vocábulo carne. Na atual fantasmagoria ciborgue que nos ronda, não é incomum imaginar o corpo como uma espécie de suporte a ser ativado e mesmo hiperativado por meio de implantes tecnológicos. Nesta última leitura, além do esforço de manejar e criar um novo léxico para dar conta do futuro imaginado, Neuromancer me fez pensar em uma ciberalquimia, numa combinação e engenhosa composição a partir da interação de materiais bem distintos. Que futuro se projetaria da combinação, por exemplo, entre carne e silício?

 

 

PEDRO KOSOVSKI é dramaturgo, diretor teatral e professor de artes cênicas da PUC-Rio e do Teatro O Tablado. Suas peças foram apresentadas nos principais festivais do Brasil, em Portugal e na Colômbia. Em 2005, funda Aquela Cia. de Teatro, em parceria com Marco André Nunes. Ganhador de dois prêmios Shell, em 2015 e 2017 (Caranguejo Overdrive e Tripas). Em 2019, foi indicado ao Prêmio APCA pela dramaturgia da peça Kintsugi, 100 memórias.

 


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