A roupa nova do tradutor

Caetano Galindo

 

Fora os poemas que fazem parte de O livro dos gatos sensatos do Velho Gambá, de T. S. Eliot, minha única experiência oficial com tradução infantil é um livrinho dinamarquês que a Companhia das Letras deve publicar em breve: Coração, pode chorar…, de Glenn Ringtved.

Daí talvez eu ter pensado em outra história dinamarquesa na hora de dar nome a este texto. Daí, e do fato de que certamente não é à toa que, na história de Andersen, quem aponta o dado óbvio que todos fingiam não perceber, que o rei estava realmente nu, é uma criança.

Elas, as exigentes.

Você pode enganar muitos adultos por muito, mas muito tempo mesmo. Mas não consegue manter uma criança enganada nem por 30 segundos. Porque ela se desinteressa de você. E esse é o maior pecado que você pode cometer.

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Ainda antes de a gente se conhecer, a Sandra se viu envolvida num acidente de trânsito. Nada tão grave, mas teve que passar umas semanas com um colar cervical. Quando tirou o negócio, ficou se sentindo frágil, quebradiça. E ela diz que a única coisa que pôde fazer para se sentir de novo dona do próprio corpo foi… dar uma cambalhota.

Lembrei bastante dessa história em finais de 2017, quando me vi no maior bloqueio tradutório que já experimentei até hoje. Meses a fio enrolando, sem conseguir fazer andar a tradução da poesia de T. S. Eliot, simplesmente travado pela enormidade da tarefa. Medo.

Minha cambalhota então foi a decisão irresponsável de traduzir “Oh, the places you’ll go”, de Dr. Seuss, o gigante da literatura infantil que produziu coisas como o Grinch. Tirei uma semana e finalizei o poema, a última coisa que Seuss publicou em vida, em 1990. Depois disso, em menos de três meses eu tinha produzido uma primeira versão de todo o volume da poesia de Eliot.

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Mas de que maneira um poema infantil teria o poder de confirmar minha capacidade tradutória? Ou, mais corretamente, por que teria o poder de confirmar minha relativa segurança quanto a minha pretensa capacidade tradutória?

E veja que não usei o Seuss como laboratório para tradução da poesia infantil de Eliot, a que eu só chegaria no final daqueles três meses. Usei meu exercício de tradução de rimas infantis como alongamento para traduzir A terra devastada, talvez o poema mais famoso do século 20.

Pois para mim tudo se resume ao tipo de perfeição que a tradução de boa poesia infantil exige. É mesmo um tipo específico de perfeição. Porque, se a tradução poética já tende a pedir o impossível que é importar o máximo de um conteúdo mantendo o que der para manter das características da forma do original (rimas, ritmos, sonoridades etc.), o que a boa poesia infantil faz é acrescentar a tudo isso a exigência de uma limpidez cristalina, de uma fluência imediata.

O tradutor, ali, não pode se dar ao luxo de ser rebuscado e tortuoso para encaixar os ritmos. Não pode procurar uma palavra rara para encaixar uma rima. Não pode deixar de se manter claro.

Crianças não querem notas de rodapé, não aceitam complicadas explicações da sua incompetência ou dos seus insucessos. O texto tem que funcionar, e ponto. E de primeira. Precisa ser sedutor, encantador e todo acessível já de cara.

Não que tenha de ser simples. Nem óbvio. Nesse sentido, as crianças podem dar aulas de tolerância a muito leitor maduro. Bobagem, invenção, novidade: tudo pode entrar no texto, desde que ele se mantenha convidativo, aberto e fluido.

Faça o mais difícil, tradutor, e faça sorrindo. Sem titubear.

A tradução de poesia infantil não aceita disfarces, não tolera enfeites, não suporta enrolação nem empáfia. Ela não permite que o tradutor se esconda nem desvie de certas responsabilidades. Ela é o máximo da exigência, medido pelas regras mais claras e menos negociáveis. Porque assim é o seu público.

Exige simplesmente tudo. E tem direito! Porque o jogo, num poema para crianças, é conquistar imediatamente e nunca perder o interesse da leitora. A margem de erro, portanto, é quase nula.

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Nesse momento estou há cerca de cinco anos dançando em torno da vontade de terminar a tradução integral de Finnegans Wake, de James Joyce. Será por acaso que vem me dando uma coceira de traduzir Alice, de Carroll?

Será essa minha nova cambalhota?

Curiouser and curiouser

 

 

CAETANO W. GALINDO é professor de história da língua portuguesa na Universidade Federal do Paraná - UFPR. Traduziu vários livros, entre eles Ulysses, de James Joyce.


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