As Estrelas

Autor: Eliot Weinberger
Editora 34
Coleção Fábula
São Paulo, 2019
Número de páginas: 56
Tradução: Samuel Titan


PERGUNTAS SEM IDADE NA NOITE FORA DO TEMPO 

Por Laura Erber

 

o poeta é um pinguim, suas asas são para nadar
e.e. cummings

 

É sobre um livro chamado As estrelas, escrito por um poeta norte-americano para um museu de arte moderna. Originalmente destinado aos adultos, As estrelas é um livro de perguntas em cascata, suspensas no ar, girando nos torvelinhos da curiosidade humana. Um livro para crianças velhas, adultos sem idade ou ainda atados às perguntas que faziam na infância. É um livro para a nossa falta de tempo, para o nosso cansaço…


Ninguém sabe dizer ao certo onde termina a ciência e começa a imaginação. Ninguém sabe dizer ao certo onde termina a infância, onde começa a vida adulta. O que é um adulto? O artista polonês Tadeusz Kantor dizia que todo adulto arrasta consigo uma criança morta, a criança que foi um dia. É uma imagem bela e terrível que Kantor concretizou em cena fazendo seus atores carregarem nas costas bonecos de pano de si mesmos.

O que é uma criança? Alguém que faz perguntas e troca de assunto sem rodeios?


Pois também assim são os poemas. Fazem perguntas, mudam de assunto na quebra de um verso. Mas ninguém até hoje conseguiu terminar de dizer o que é um poema.


A escritora Luiza Neto Jorge disse que o poema ensina a cair, como se cai numa queda de amor. É difícil cair e aprender a cair ao mesmo tempo, mas seria parecido com isso o poema. Tudo no poema costuma ser fácil como cair e difícil como aprender a cair durante a própria queda.


Outra poeta portuguesa, Natália Correia, para esta, o poema se atreve a ser além do humano. Ela também disse que o poema é o grilo, uma rosa, é aquilo que cresce.


Paul Celan, um poeta sem lugar de uma época sem sossego, dizia que o poema é solitário e andante, como algumas espécies de bichos – os coalas, o lobo-guará, as toupeiras e os ornitorrincos.


Há muitas relações entre poemas e animais, estão irmanados não apenas pela solidão de algumas espécies. Um poeta chamado e.e. cummings disse: o poema é como um pinguim, usa as asas para nadar.


A criança é andante, mutante, algumas falam bastante, até com o vento, outras falam para dentro, são arlequinais, são cem, são trezentas crianças numa só, usam asas para falar. O poeta tem algo de louco e de criança, disseram também. Nem todos, nem todas.


Outra poeta, também portuguesa – há muitos poetas neste mundo, talvez mesmo bem mais que leitores de poemas, desculpem se vou puxando pela memória –, disse que poeta é quem escreve no ateliê vazio. O ateliê vazio do poeta deve ser um lugar cheio de vozes. Ela dizia também que o poema é perigoso, como uma faca, pode ferir tanto quem lê quanto quem escreve. Um poema triste pode ferir, mas há poemas tão felizes que nos rasgam por dentro.


Há ainda quem acredite que poemas são como crianças velhas: sabem brincar enquanto aprendem a morrer. Brincam de morrer. As crianças, muitas delas, numa certa idade, gostam de se apagar e acender. Sumir e reaparecer. Há um filme de Victor Erice que mostra uma menininha se fazendo de morta de um jeito estranhamente convincente. Crianças talvez sejam estrelas que são poemas cheios de perguntas sem idade e brincadeiras de morrer. (Seria bom se também os adultos pudessem aprender a morrer inventando brincadeiras, alguns contam piadas, o que já é um pouco como brincar).


Há ainda os que pensam que o poema é uma busca. Por um tesouro fantástico ou por um caco de espelho.


Há ainda os que creem que o poema é uma questão de espaço, enquanto outros dirão que tudo não passa de ritmo, cadência e cavalgamentos. Dizem que o poema é uma espécie de música encontrada nas palavras mais simples. A criança se atreve a cair e a perguntar: o que são as estrelas? Nenhuma resposta a satisfaz por muito tempo. Nem aos poetas.


Poetas são um pouco os nossos especialistas na arte de perguntar. (Os filósofos também, certamente).


Voltando ao início: isto é sobre um livro escrito por Eliot Weinberger para crianças de todas as idades, também conhecidas como pirralhos, adolescentes, adultos, idosos, velhotes e crianças mesmo. Weinberger escreveu um longo poema deflagrado por uma única pergunta: O que são as estrelas? Muitos povos tentaram dar respostas ao encanto do céu cintilante, cada um a seu modo foi levado a imaginar e desenhar mentalmente a matéria estelar, seu feitiço luminoso, sua estranha presença. Para alguns povos a resposta era efetivamente uma imagem, para outros uma fórmula, para outros uma história com personagens e enredo. Viram nelas os olhos cintilantes de guerreiros e os caçadores de foca que perderam o rumo. No arco tenso da pergunta, o poema avança em cascata de respostas, como se crianças estivessem deitadas no chão fitando o céu imenso numa noite sem lua, em franco debate de ideias e visões. 


Numa noite assim, Laurie Anderson, uma poeta que canta, imaginou que noites são naves de atravessar o tempo em direção a outro mundo.


Os livros de poemas também fazem isso, nos transportam a outro mundo, às vezes um outro mundo dentro do nosso, ou atrás, ou abaixo dele. Este livro nos leva nas chamas de seus pequenos incêndios cadenciados, na beleza da língua que o autor e seu tradutor manejam, no dorso das metáforas que fazem cócegas, na voragem de imagens musicais. Um livro fora do tempo, para pessoas sem idade atravessando a longa noite das perguntas que continuam a cintilar.

 

LAURA ERBER nasceu no Rio de Janeiro, em 1979. É escritora, professora, artista visual e editora. Dirige a Zazie Edições e o site Torvelim.


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