O sapo é sapo

Autor e ilustrador: Max Velthuijs
Editora: Martins Fontes
São Paulo


A PRIMEIRA EXPERIÊNCIA É UM EVENTO FANTÁSTICO

Sobre a série de livros do personagem Sapo e seus amigos, do escritor holandês Max Velthuijs.

Por Luiza Leite

 

O melhor do mundo são as crianças de quatro anos.

Sylvia Plath

 

“Desenhar um sapo não é tão difícil. Mas como se desenha um sapo apaixonado? Ou um sapo com medo? (...) Se você me perguntar como fiz isso, terei que responder com um simples ‘não sei’.” É assim que o autor e ilustrador holandês Max Velthuijs fala de um dos seus trabalhos mais conhecidos, a série de livros ilustrados sobre o adorável Sapo e seus amigos. Basta a leitura de apenas um dos títulos para que o leitor – criança ou adulto – renda-se aos encantos do personagem, sempre vestido com um inconfundível calçãozinho listrado de branco e vermelho. Sapo é incrível, pelo menos por três motivos óbvios: está sempre conectado com o que sente a cada momento (por isso tem algo de mestre zen ou criança), é falante como nós e se deixa levar por ímpetos e inquietações humanas. Como as fábulas, essas histórias têm algo a ensinar. Mas em Velthuijs o que elas ensinam fica em aberto, há uma leveza, escapando assim das armadilhas de certo moralismo pedagógico e edificante que remonta ao Iluminismo, quando surgiram os primeiros contos para crianças.


Velthuijs fala das experiências fundamentais com uma rara candura: a morte, a paixão, a tristeza, o medo, a insegurança. Parece contrariar os que acham que as crianças devem ser poupadas de determinados assuntos. Não é a natureza deste ou daquele tema que importa, mas a forma de abordá-los. Walter Benjamin escreveu: “A criança exige dos adultos explicações claras e inteligíveis, mas não explicações infantis, e muito menos as que os adultos concebem como tais. A criança aceita perfeitamente coisas sérias, mesmo as mais abstratas e pesadas, desde que sejam honestas e espontâneas”. É antes o estilo que torna possível aproximar o leitor das situações complexas enfrentadas por Sapo – refiro-me ao personagem sem o artigo, pois nome próprio e substantivo se confundem nos títulos originalmente publicados em inglês, Frog in Love ou Frog is Frog.


Em O Sapo é Sapo, por exemplo, Sapo vive uma crise de identidade e começa a questionar sua falta de talentos. A Pata sabe voar, o Porco sabe fazer bolos, o Coelho sabe ler, o Rato sabe fabricar coisas. “Não sei nem voar. Se pelo menos eu tivesse asas...” Sentindo-se “inútil”, Sapo constrói umas asas, mas acaba aterrissando no rio. Vendo-o sair encharcado da água, o amigo Rato diz sem afetação: “Você devia saber que sapo não voa”. A sinceridade radical dos personagens equivale à naturalidade com que as crianças leem os acontecimentos e interagem com eles. É com essa capacidade que os amigos estão sempre dispostos a oferecer conforto e afeto. Após tentar fazer exatamente o que os outros fazem sem sucesso, Sapo vai até o rio. Percebe seu reflexo na água. “Esse sou eu.” E conclui, satisfeito: “Um sapo verde com calção de banho listrado”.


Sapo foi personagem coadjuvante dos livros de Velthuijs até a publicação de O Sapo apaixonado, em 1998, o primeiro da série. O autor mostra o espanto de Sapo em relação aos sentimentos que ele não consegue reconhecer nem nomear. O leitor percebe no modo como Sapo e seus amigos tentam decifrar os sintomas que estar apaixonado é ser assaltado por sensações esquisitas. “O Sapo estava sentado à beira do rio. Sentia-se estranho. Não sabia se estava alegre ou triste”, diz o narrador. Na tradução para o espanhol, lê-se que Sapo “se sentia raro. No sabia se estaba feliz o triste”. Se em espanhol a palavra raro quer dizer “estranho”, em português faz referência ao que é excepcional ou extraordinário. Poderíamos dizer que Sapo se sentia engraçado, como na edição original em inglês: He felt funny. He didn’t know if he felt happy or sad. Sentir-se engraçado é o mesmo que se sentir estranho e se reconhecer como alguém capaz de fazer rir. Essa babel de estranhezas talvez seja reveladora do modo inteligente e delicado como o autor dá contorno às emoções.


Simplesmente não saber o que se passa dentro pode ser entendido como chave para falar de toda a série. Velthuijs parece dizer indiretamente que viver é sentir, mesmo que não saibamos nomear o que sentimos. A aventura sentimental de Sapo se desenrola diante do leitor como uma espécie de investigação contemplativa, duas coisas que a princípio podem parecer incompatíveis. No que diz respeito às crianças, o processo de descobrir algo é também um ato de contemplação, uma vez que elas estão ancoradas no presente. E nesses livros nomear não significa capturar ou reduzir. É antes perceber as incontroláveis mutações de si mesmo. Por isso, talvez, localizamos o enamoramento na memória da infância. Apaixonar-se é uma forma específica de alegria, aquela de brincar com alguém, do mesmo modo como brincamos ou jogamos com a linguagem. Assim como Sapo, sentimos “vontade de rir e de chorar ao mesmo tempo” e “alternâncias de calor e frio”. Deixamos presentes na soleira da porta, sem coragem de encarar o amor, como ele faz com a Pata. Estranhos, raros, engraçados, com o coração fazendo “tum-tum mais rápido e o rosto ainda mais verde”.


As experiências complexas são antes de mais nada humanas, e, embora sejam potencialmente assustadoras, encontraremos uns nos outros o cuidado amoroso que tornará possível atravessá-las. A ideia de que haja modalidades de entretenimento estritamente adequadas às crianças parece escapar a Velthuijs, uma vez que ele trata de sentimentos que fazem parte da vida. Essas situações todas acontecem em um só mundo – como, por exemplo, aquele de um inverno tenebroso em O Sapo e o inverno. Sapo vivencia o frio extremo pela primeira vez. Não é peludo feito o Coelho, não tem as penas da Pata ou a gordurinha do Porco. Velthuijs não poupa o leitor das lágrimas, das frustrações e até dos comportamentos hostis, como no livro O Sapo e o estrangeiro, em que o desconhecido Rato é chamado de imundo, atrevido e preguiçoso. Por outro lado, essas situações são superadas porque há curiosidade genuína de um pelo outro e uma capacidade incansável de fazer perguntas.
O autor não escamoteia a dificuldade que é viver, mas oferece saídas cheias de ternura, afeto e senso de humor para os dramas, que são também os nossos. Quando nada parece ir bem, acontecem as cenas mais tocantes, como Sapo, a Pata e o Porco adormecidos na mesma cama após uma noite de medo. Em O Sapo está triste, Sapo não sabe dizer por que acordou assim. Os esforços do amigo Rato para animá-lo com piruetas são enternecedores mas inócuos, até ele ir buscar um violino. Ao som da música, Sapo começa a chorar e não para mais. Rato, então, explode numa gargalhada: “Ah Sapo, como você é bobo!”. De tanto que o Rato ri, Sapo não resiste e começa a rir. Em seguida, lá estão todos os amigos rindo sem parar.
Essa aposta em que afinal a vida é gostosa e vale a pena se traduz igualmente no aspecto visual dos livros como um todo e na graciosidade dos personagens. As pinturas acompanhadas de texto em cada página apresentam tanto elementos pontuais de dentro de casa – um jarrinho de flor, um bolo, um bule de cerâmica, um quadro na parede, um saleiro – como a paisagem do lado de fora – o lago, as pequenas nuvens, os tufos de capim, os morrinhos, as árvores e as pedras. O traço de Velthuijs transmite nebulosidade e precisão, repetição e novidade, o que faz que cada livro seja ao mesmo tempo familiar e uma aventura inusitada. No mundo de Sapo e seus amigos não acontecem eventos fantásticos, mas nele há sempre uma primeira experiência sendo vivida. E talvez toda primeira experiência seja em si um evento fantástico. Sapo viaja pela primeira vez na companhia do Rato, no livro O Sapo e o mundo imenso. Mal se afasta de casa, já se sente cansado, com calor ou frio demais. Não é preciso nomear a saudade para narrá-la. Basta o jogo sutil entre imagem e texto. De volta, ele reencontra os amigos para um lanche em que todos riem em torno da mesa.


Velthuijs parece dizer: tudo acontece. E tudo o que acontece faz parte da aventura de estar aqui. Talvez por isso possamos sentir nesses livros certa atmosfera que encontramos na obra do cineasta japonês Yasujiro Ozu. Em seus filmes, um personagem é capaz de expressar uma verdade difícil enquanto que sorri, assim como Sapo e seus amigos às vezes interrompem momentos solenes ou de tristeza com uma brincadeira e muito riso. Fazem lembrar o filme Bom dia, do mesmo diretor, em que acompanhamos a cumplicidade ao mesmo tempo cômica e terna de dois irmãos. Diferentemente de outros livros para crianças, em que temas complexos às vezes são apresentados com uma densidade dramática, as histórias do Sapo nos fazem sentir que não há situação árdua que resista irreversivelmente à força da alegria.

 

LUIZA LEITE é pesquisadora e escritora. Mestre em Antropologia pelo Museu Nacional / UFRJ e doutora em Literatura pela UERJ. É também co-criadora da editora Fada Inflada, dedicada à publicação de livros de imagem e texto para crianças dos 3 aos 103. 

 [Todos os livros da série foram publicados no Brasil pela editora Martins Fontes, com tradução de Mônica Stahel.] 


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