Mais literatura, menos autoajuda

Laura Erber

 

Eu acho que a gente não deve ensinar a criança numa peça. A gente deve montar uma peça como se monta para um adulto: é um conflito, tem de haver um conflito na peça. (…) Quando escrevemos para crianças somos apenas aqueles que estão abrindo o caminho que vai do sonho à realidade. Estamos criando, através da arte e a partir do maravilhoso, a oportunidade do menino sentir que a vida pode ser bonita, feia, clara, escura, feita de sonhos e realidades.

Maria Clara Machado

 

Fantasias medievais, cavaleiros, fossos, princesas e dragões estão em baixa; orientações de como viver, o que fazer e o que comer estão em alta. Livros vendem adestramento comportamental e inteligência emocional. Pais transformam filhos em crianças-propaganda que transformam suas famílias em empresas de publicidade. Crianças e jovens estão no centro de uma disputa mercadológica que tende a converter a experiência em produto e a literatura em uma escola de socialização e boas maneiras.


Enquanto isso, na outra margem, a literatura engajada oferece novos cenários política e socialmente importantes, mas nem sempre sensíveis no que diz respeito à imaginação, à linguagem e à percepção da criança sobre as opressões e desigualdades do mundo em que vive. Quando situados no ponto cego do poder dos adultos sobre as crianças, também os livros que militam por emancipação e consciência cidadã podem acabar morrendo na praia das boas intenções.


Quem escreverá a ficção científica sobre um mundo no qual toda literatura terá se convertido em autoajuda e discurso militante? Estranho mundo onde já ninguém quererá lidar com metáforas, fabulação, polissemia e elasticidade do sentido. Mundo em que a literatura de evasão e contos de fadas, com ogros, bruxas e duendes, terão desaparecido ou se tornado vestígios do imaginário de uma outra civilização. Um mundo como esse testemunharia o empobrecimento da imaginação e da língua, veria surgir leitores e espectadores incapazes de lidar com os humores e decolagens da linguagem rumo ao desconhecido ou ao estranho, rumo ao ambíguo e ao contraditório que nos atravessa e também nos molda. 


Infelizmente já adentramos a nova era da domesticação do ficcional, em que personagens e enredos só são bem aceitos quando exemplares - modelos de consuta e condutores modelo dos leitores. A literatura destinada às crianças e jovens sempre foi atravessada por projetos de controle do imaginário, hoje esse controle se articula fortemente a um psicologismo superficial mas perigoso, que tem como objetivo o adestramento emocional e o controle de si, subespécies de autoajuda que ultrapassam o formato livro e inundam canais do YouTube, atravessam canções, poemas e espetáculos. É o tempo da informação explicada, do texto sem magia e sem espanto, de um lugar muito apertado oferecido à imaginação da criança leitora. 


Imaginemos por um momento uma biblioteca guiada exclusivamente pelo critério da exemplaridade: teríamos nela apenas livros com histórias de heróis, sem vilões, narrativas encabeçadas por protagonistas lisos e estáticos, desprovidos de conflito interno, rodeados por adultos que exibiriam as virtudes éticas do convívio familiar numa sucessão de gestos exemplares, de ações sem peripécia e sem muita graça. Personagens bidimensionais, linguagem pragmática e enredos que funcionariam apenas como subterfúgio para educar.


O problema da autoajuda que invade a literatura – inclusive a ficcional – é que parte de uma noção reduzida de leitura. A criança – e também o adulto – não lê guiada por um princípio exclusivo de identificação. Não lemos romances, contos e poemas para aprender a viver, ou para entender quem somos a partir de personagens muito parecidos conosco, lemos também para participar de outros desejos, de outros mundos, de outros conflitos. Numa narrativa de heróis e monstros, pode acontecer de o monstro ser tão bem delineado e interessante que nos identificamos com ele.


A literatura de evasão, quando vigorosa, lança o leitor dentro de um ambiente desconhecido e fascinante, como Kipling, por exemplo, que a despeito do caráter moral da narrativa sobre o menino criado por uma alcateia em Seeonee, consegue fazer o leitor sentir o cheiro e escutar os sons da selva ao seu redor. Descreve o pelo da pantera Bagheera com diabólica precisão tátil, tanto que o leitor pode sentir sua textura, seu brilho, sua temperatura. Em outro momento estamos sendo carregados pelos macacos que pulam entre as árvores em grande alvoroço. A literatura nos transporta de um modo muito particular, oferece possibilidades extraordinárias de sensibilização do corpo inteiro e de todos os sentidos através do poder da palavra e da visualidade que lhe é própria. 


Há muitas razões para escrever, e ensinar não precisa ser a principal nem o único meio de legitimar o fato literário. O filósofo Gilles Deleuze dizia que a “vergonha de ser um homem” seria uma bela razão para escrever. Porém, no cenário da distopia aqui visulumbrada, teríamos uma literatura asséptica, que se entenderia e se afirmaria como uma espécie de Mestre de Vida ou tutora da criança em formação, literatura como modelo de conduta e condutora modelo. Livre de malfeitores, de mistério e de crianças encapetadas, sem planos de vingança ou loucos sonhos de fuga; ou seja, a literatura de um mundo idealizado pelo adulto em função dos seus próprios medos e desejos, certamente legítimos e reais, mas distantes da força e do engenho da imaginação e percepção infantil.

Uma revalorização do literário e do engajamento estético – que é sempre diferente do escapismo estetizante – talvez pudesse interromper essa distopia já em curso. Sabemos, porém, que literatura é noção escorregadia que arrasta consigo mil problemas.


Fiquemos, por ora, com os problemas e os enigmas que engendra.

 

LAURA ERBER nasceu no Rio de Janeiro, em 1979. É escritora, professora, artista visual e editora. Dirige a Zazie Edições e o site Torvelim.


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