Isol Misenta

Ilustradora e cantora argentina. Com mais de 20 livros publicados e traduzidos para 16 idiomas, recebeu os prêmios Hans Christian Andersen e Astrid Lindgren de literatura infantil.


Quem é a Isol?

Uma mulher de 47 anos, argentina, ilustradora, escritora, cantora, mãe de Antón e de Frida, companheira de Rafael. Com esses dados, com certeza você me acha na internet e em Buenos Aires, onde eu moro.

 

Você se lembra de você mesma desenhando na infância?

Sim, tenho muitas lembranças porque eu gostava de desenhar, as pessoas falavam que era boa, era uma atividade diária. Mas até entrar em belas-artes não dava muita importância ao que produzia.

 

Qual a primeira coisa que repara em um livro?

Em um livro-álbum, vejo as imagens e a história. Como funcionam as duas coisas. Mas, se os desenhos são fofuchos ou muito comerciais, fica difícil avançar, porque aí já posso ver a opinião estética dos criadores e como eles se posicionam quanto ao produto que fazem, de um modo meio fábrica de linguiças, e então largo... Gosto daquilo que me inquieta ou surpreende de algum modo. A primeira frase já diz muito de um livro.

 

O que a Isol gosta de ler?

O último que li foi Pyongyang, de Guy Delisle, uma HQ sobre a Coreia do Norte. Antes, Quando éramos órfãos, de Kazuo Ishiguro. Gostei de La luz negra, da argentina María Gainza. Agora estou lendo Historias inverosímiles (Unlikely Stories, Mostly), de Alasdair Gray. Desfruto muito de diferentes tipos de literatura; se há algo de humor negro e um olhar agudo sobre as coisas, melhor ainda. E, claro, amo os livros-álbum, especialmente os de Kitty Crowther, Anne Herbauts, Beatrice Alemagna e Wolf Erlbruch, grandes observadores e artistas.

 

Algum projeto que gostaria de realizar e não teve ainda a chance ou o tempo?

Quero fazer um livro com o que sobra; poemas soltos, ideias curtas, desenhos estranhos. Tenho material. Vou fazer.

 

Se não fosse ilustradora, seria…?

Talvez fosse cantora full-time, ou compositora, ou dramaturga... a ideia é criar algo, narrar histórias de alguma forma, em relação com outros artistas. Mas não estou fechada a nada; se me prometessem que vou ter mais vidas no futuro, estaria aberta a encontrar outras paixões.

 

Por falar em tempo, como é o tempo do desenhar, ilustrar, imaginar imagens?

Meu tempo é lento e tranquilo, preciso de certo grau de solidão e silêncio para me conectar com esses mundos. Tem algo de meditação, de deixar de pensar em uma coisa pontual e não ter urgência de fazer uma coisa controlada. É um momento de entusiasmo profundo e íntimo.

 

A música tem influência sobre o seu modo de desenhar?

Às vezes, sim. Por isso escolho músicas diferentes segundo a tarefa. Se for um trabalho que já está encaminhado, posso colocar canções que me fazem cantar como Kate Bush, Antony and the Johnsons, PJ Harvey, mas se tiver que me concentrar coloco música instrumental (barroca, ou minimalista como Phillip Glass). Tem música que me deixa em um modo de inspiração, como Cum dederit, de Vivaldi, mas é mais séria e melancólica, e outra que é mais leve, como Dani Umpi, que me faz rir e dançar, e isso me levanta muito nesse momento mais monótono das correções etc. Tem música que me deixa em uma chave obscura e misteriosa, como Nick Cave, como Spinetta, que me faz lembrar da adolescência e de certa maravilha meio hippie do mundo. Tenho muitos aliados na música, me ajudam a achar o clima.

 

Existem ilustrações que deram errado? Como são?

As categorias bom e mau, certo e errado não servem muito para mim, mas sim, existem muitos desenhos de que não gosto e que sinto que não funcionam. Quando o desenho fica rígido, sem graça. A mim interessa que a plástica da ilustração seja boa, que os rostos expressem o que sente a personagem, e que a composição e a estética escolhida sejam interessantes e estejam de acordo com o clima da cena que quero mostrar. Tenho um monte de provas falidas de cada livro, muitíssimas. Faço várias vezes os mesmos rostos, os cenários. Depois, quero que tudo se veja fluido e fácil, mas chegar a isso não é tão simples.

 

André Breton dizia que as palavras fazem amor. O que acontece entre as palavras e as imagens? E entre as imagens e as imagens?

No meu trabalho, o vínculo entre imagem e palavra é tudo. Embora o vínculo possa ser aberto ou ter várias interpretações, a palavra como que trata de “titular” a imagem, mas às vezes a imagem se revela e a obra acaba por dizer uma terceira coisa que não é o que diz o texto ou o desenho, mas sim o resultado dessa relação entre ambos. Adoro trabalhar com essas duas linguagens. E é incrível como o cérebro faz associações entre texto e imagem, o tempo todo. Então podemos trabalhar com esse diálogo. Faço isso no livro Abecedario a mano, em que a cada letra correspondem uma imagem e uma frase. Mas essa correspondência é realmente aberta, em um sentido poético. A uma mesma imagem poderiam corresponder mil frases, e funcionaria também. Esse livro foi traduzido para o francês, o inglês e o grego, e em cada edição mudamos as frases de lugar e as imagens dizem outras coisas. Portanto, é uma relação aberta e criadora.

 

Existe algum texto impossível de ilustrar?

Eu acho difícil ilustrar ou criar sobre situações traumáticas, sem que vire um panfleto ou algo jornalístico. Se a pessoa não consegue se afastar um pouco, é difícil metaforizar, ser livre em relação à moralidade sobre uma certa questão, encontrar um viés de exploração artística para além do impacto do evento em si. No meu caso, preciso poder colocar algo de humor e de fantasia, e há certos temas de injustiça monstruosa, perversão e sordidez que não sinto que possa trabalhar de um modo criativo, para oferecer um olhar fresco sobre isso que a gente já conhece. Encontrar uma linha de carinho, como a do livro A caminho de casa de Jairo Buitrago, sobre um pai desaparecido, é muito difícil e muito valioso. A obra deve ter um valor artístico per se, para além de denunciar uma injustiça. Os livros que falam de “grandes temas” sem questionamento ou sem se aprofundar nas contradições ficam numa coisa dogmática e só confirmam o que já sabemos, o que os torna muito pequenos.

Por outro lado, para mim é bem difícil ilustrar um texto que não me interesse, me resulta impossível, acabam saindo coisas burocráticas, já nem tento. Tenho que poder me conectar com o que diz o texto, torná-lo meu de algum modo.

 

Sobre maneiras de desenhar: você faz os desenhos todos à mão, do modo tradicional, ou usa alguma ferramenta digital?

Faço os desenhos com lápis, caneta ou carvão. Também uso colagem. Muitas vezes digitalizo depois e uso o computador para apagar as partes de que não gosto, combinar vários desenhos em um, fazer colagens digitais, acrescentando cores e texturas que já tenho digitalizadas previamente. Mas gosto bastante de trabalhar com materiais não virtuais; surgem coisas diferentes, e gosto da margem de erro que eles contêm.

 

Poderia citar algumas ilustradoras e alguns ilustradores contemporâneos que admira?

Ah, já mencionei Anne Herbauts, Kitty Crowther, Beatrice Alemagna, Wolf Erlbruch, Olivier Douzou, dos contemporâneos, mais alguns senhores da velha guarda argentina, como Hermenegildo Sábat, Carlos Nine, Ayax Barnes e o primeiro Napoleón. Também o pessoal dos comics, como Fabio Zimbres, Max Cachimba, Alberto Breccia, Art Spiegelman, Quino, Liniers. Gosto de muitos outros, mas eles são as minhas referências mais importantes.

 

Existe uma diferença crucial entre ilustrar para adultos e ilustrar para crianças?

Acho que deveríamos falar do que estamos narrando, na verdade, ali está a diferença. A técnica pode ser a mesma, fazer desenhos mais ou menos “clássicos” ou artísticos vale para qualquer idade. Mas o que se mostra nesses desenhos tem a ver com o que se quer contar, o que interessa que seja percebido nesse desenho. Eu gosto de que a ilustração tenha poucos elementos, às vezes meio como de cartaz, porque isso me parece de fácil leitura e forte. Mas é uma questão pessoal, faço a mesma coisa para a capa de um disco ou para um livro. No entanto, levo em conta o olhar de uma criança, no sentido de não colocar simbolismos que sejam legíveis só através de uma experiência adulta. Já usei palavras ou referências que implicam um mediador que explique para o leitor infantil um significado (o X dos cromossomos femininos em Abecedario, ou a palavra “gárgula” em Ter um patinho é útil), mas é que realmente me parecia uma pena sacrificar essas ideias. As crianças não se incomodam; acho que também é legal aprender algo novo lendo, não quero subestimar os leitores. Sempre trato de dar o melhor que consigo imaginar. Tenho talvez uma empatia natural com o olhar infantil, como narradora, sei como contar algo que possa ser desfrutado por adultos e crianças. Essa é a ótica que organiza tudo. Mas tenho visto ilustradores que pensam que para criança deve ser feito algo mais caricaturesco ou levinho, e perdem muita qualidade artística ilustrando um livro “infantil”. Às vezes o mercado também pede isso. É uma linha fina mas profunda a que divide o pouco comprometido com o genuinamente pensado como próprio, como uma obra pessoal oferecida ao público infantil. Eu sinto como minha obra, algo próprio.

 

Como é ser ilustradora na Argentina?

Não sei se posso dizer algo representativo, porque publico mais fora da Argentina do que aqui. Mas temos um grande movimento de ilustradores, humor gráfico, um movimento em comum com escritores. Até um tempo atrás, o governo comprava muitos livros para as escolas, e isso ajudava muito as editoras e os autores. Agora é um momento de vacas magras, os projetos quase não decolam e algumas editoras estão fechando ou saindo do país. É triste. Perde-se tanto quando não há projeto de país com educação para a felicidade da sua gente e a independência de pensamento, de uma forma comprometida com os fatos... Por sorte, há bastante vontade de criar, de muitos jeitos, e as pessoas se organizam, fazem feiras independentes de livros, fanzines, comics, projetos bem criativos... Mas viver da arte (e de outras coisas também) está um pouco difícil se você trabalhar apenas na Argentina. O bom deste trabalho é que, se você puder fazer contatos em outros lugares do mundo, é possível realizá-lo a distância. Aqui tem pessoas muito talentosas, e antes os desenhistas iam para a Europa. Agora há a possibilidade para alguns de trabalhar daqui mesmo, enviando pela internet.

Existem associações de ilustradores, como ADA, que trabalham por uma lei para ilustradores (tomara que um dia aconteça), para terem aposentadoria de acordo com suas publicações, e que montam exposições de desenhistas, difundem concursos e discutem os problemas e desejos das pessoas do meio. Até dez anos atrás, tínhamos também o Foro de Ilustradores, que conseguiu muito em relação aos direitos de autor e que começou a realizar exposições de ilustrações, que de repente posicionaram o ilustrador como autor, para além do livro, entre muitas atividades, como, por exemplo, representar a Argentina como país convidado da Feira de Bologna. É necessário  que continuemos nos reunindo e pensando coisas para não ficar à mercê da máquina comercial, tão mesquinha e pouco respeitosa com relação ao trabalho e à sensibilidade do ser humano.

 

Se tivesse de explicar a um extraterrestre o que é um ilustrador, como o faria?

Se o extraterrestre tivesse olhos, seria um bom começo. Faria um retrato dele (para que visse que sei desenhar) e embaixo escreveria: Extraterrestre. Sim, seria bastante literal nesse caso. Se avançássemos nisso, só aí mostraria a ele esse artefato lindo que chamamos de livro, e como os desenhos podem contar histórias combinando-se com as palavras. O bom é que desenhos podem ser entendidos em muitas línguas.

 

Agosto de 2019.
Tradução: Luciana di Leone
[Colaborou nesta entrevista Antonio Akerman Seabra] 


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