Grimble

Autor: Clement Freud
Ilustrações: Quentin Blake
Editora: Pequena Zahar
Rio de Janeiro, 2014
Número de páginas: 136
Tradução: Antonio de Macedo Soares


Os pais invisíveis

Por Camila Werner

 

Todo ser humano já teve medo do abandono e do desamparo. Aos 3 ou 4 anos, eu tinha por hábito segurar na bolsa da minha mãe para não me perder. Um dia, dentro de um supermercado, me dei conta de que segurava a bolsa errada. Nunca me esqueci da sensação de olhar para cima e não ver minha mãe. A Rosa, filha de um casal de amigos com quase a mesma idade, tentou desmentir essa afirmação ao teimar em ficar no mar sozinha. Eu, a adulta que oficialmente a acompanhava, resolvi voltar para a areia. Depois de muito insistir, tentei o velho golpe do “então você vai ficar aí sozinha.” E lá ficou Rosa por horas. O mar estava mais parado que as águas de uma piscina, ela estava no raso e havia cinco adultos observando-a à pequena distância. Mais tarde já em casa, ela disse baixinho: “vocês me deixaram sozinha no mar”. “Eu estava te olhando”, respondeu a mãe, para alívio da menina.


Também lembro muito bem de quando li Grimble (1968) pela primeira vez. No livro de Clement Freud (1924-2009), os pais do personagem principal saem de férias e deixam o menino “de mais ou menos dez anos” sozinho em casa por cinco dias. Cinco dias! Os pais praticamente não aparecem no livro e os outros adultos são meros coadjuvantes. Ao voltar da escola numa segunda-feira o menino simplesmente encontra um bilhete informando-o da viagem. Na época em que li Grimble, eu devia ser mais nova do que o protagonista, depois do susto inicial, lembro-me de ter sentido uma certa excitação. Cinco dias sozinha!


Para alívio de Grimble – e meu, ou do leitor - os adultos se mostram presentes e cuidadosos por meios de bilhetes, notas e telegramas. Em muitos casos, quase prevendo ou lembrando Grimble do que ele deve fazer. “Você vai fazer todos os deveres de casa, não vai?”, diz um bilhete deixado em seu quarto.


Mas as instruções às vezes são esquisitas, pouco claras ou até estapafúrdias, obrigando Grimble a tomar suas próprias decisões. “Leiteiro: não traga leite por cinco dias” diz um bilhete deixado na porta dos fundos. Rapidamente o menino corrige o aviso para “não traga muito leite por cinco dias”. Uma lista com o nome de cinco adultos a quem Grimble pode recorrer em caso de emergência é deixada dentro do forno junto com sanduíches que rapidamente se deterioram. Outras vezes o menino decide fazer o que acha melhor, mesmo que o conselho dado pareça razoável.


Ao contrário do que poderia parecer, Grimble não fica empolgado com a repentina independência. Ele sente falta dos pais, pensa neles com frequência, conta o tempo que falta, teme que vão voltem a tempo de assistir a sua competição de natação no final de semana, envia um telegrama, só para garantir. Mais do que isso, na falta dos pais, Grimble se apega à rotina que conhece e lhe dá segurança. O café da manhã ele toma no bar da esquina com alguns trocados, como sempre. O almoço é na escola, com mesmo menu de todas as semanas: salsichas com purê de babatas (menos às sextas-feiras, quando tem carne assada). À noite, recorre a cada um dos adultos da lista de emergência para jantar. Todos moram perto, mas ele nunca os encontra, apenas instruções ou pistas de como se alimentar. Mesmo quando há comida pronta, o menino acaba preparando algo por conta própria, uma torta de coco, uma panqueca de batatas ou sardinhas e apresuntado com molho de chocolate. Quando termina de jantar, sem nunca lavar a louça, volta rapidamente para sua casa, preocupado em ir para a cama no horário de sempre: sete e meia da noite.


Grimble é uma divertida e inteligente história sobre amadurecimento e a transição entre a infância e o começo da vida adulta ou adolescente. Um exemplar do mais típico humor inglês, talvez às vezes um pouco ácido ou frio demais para o gosto brasileiro. Mostra também que a ligação entre pais e filhos vai muito além da presença física e acompanha os filhos de alguma forma – numa leitura bem freudiana --, para o bem e para o mal, pelo resto da vida. O desamparo está ligado à impossibilidade de acesso pleno ao objeto que garante nossa satisfação, mas ele é também condição necessária para o desejo, para a busca pelo amor, talvez dissesse vovô Freud.


O inglês Clemente Freud era neto de Sigmund Freud e irmão do pintor Lucian Freud. Sua produção literária para crianças se resumiu a este livro e sua continuação, Grimble no Natal (1973). Além de um livro que nunca foi traduzido para o português, Clicking Vicky (1981). Freud foi apresentador de televisão, político e chef de cozinha. Clement Freud foi apresentador de televisão, político e chef de cozinha. Depois de sua morte, foi acusado de abuso infantil e sexual, pelo que sua esposa se desculpou publicamente. Esse escândalo terrível já daria um ensaio inteiro, mas aqui restrinjo-me a tratar do livro que encantou minha geração, a despeito da biografia do seu autor.

Embora hoje seja um livro pouco conhecido no Brasil, Grimble teve três edições em português, o que mostra a força dessa história. A primeira edição -- a que li e gosto mais, por motivos óbvios -- foi publicada pela extinta Editora de Orientação Cultural provavelmente na década de 1970 (a edição não tem data), com tradução de Diane Mazur e Jorge Luis Silva dos Reis, e ilustrações de Frank Francis (originais) e Roberto Ricardo (adaptações). O curioso dessa primeira edição é que um prefácio nos conta que, a pedido de amigos em comum, os editores brasileiros receberam Clement Freud no Rio de Janeiro, em plena semana de carnaval. Nesse encontro teriam tomado conhecimento do livro, decidindo publicá-lo. Nesta versão, os pais de Grimble vão de férias para o Brasil, não para o Peru, gerando necessidade de adaptar as ilustrações.


A segunda edição, ainda à venda em volume que inclui também Grimble no Natal, é traduzida por Antonio de Macedo Soares e publicada pela Pequena Zahar com ilustrações de Quentin Blake. Uma terceira tradução, de Heloisa Jahn, foi publicada pela extinta Cosac Naify como parte da coletânea Foras da lei, barulhentos, bolhas raivosas e algumas outras... que reunia histórias juvenis de autores como Nick Hornby, Neil Gailman, Jon Scieszka, entre outros.

 

CAMILA WERNER é editora, formada pela ECA/USP, também tradutora e agente literária, com Mestrado em Livros e Mídias Digitais pela Universidade de Leiden, na Holanda.


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