Os figos são para quem passa

Autores: João Gomes de Abreu e Bernardo Carvalho
Ilustrações: Bernardo Carvalho
Editora: Chão da Feira
Portugal, 2019
Número de páginas: 48


O URSO, OS FIGOS E O TALMUD

Por Laura Erber

 

Publicado pela Chão da Feira e assinado pela dupla João Gomes de Abreu (texto) e Bernardo Carvalho (ilustrações) este livro nos faz voltar ao Talmud. É que lá também há discussões sobre figos e frutos caídos pelo caminho. Quem pode comê-los? Quem tem direito de pegar aquilo que não é de ninguém? O que se espalha ao pés das árvores é de todos ou de ninguém? É preciso anunciar bem alto aquilo que foi encontrado?

Os figos são para quem passa reanima esse tipo de problema através da história de um simpático e guloso urso em disputa com outros animais pelos figos maduros que adora mais que tudo.

O urso da história de Abreu e Carvalho parece estar no princípio do mundo sonhando com figos maduros, tão maduros “que até pingam mel”. O urso percebe com grande frustração que há sempre alguém ou alguma coisa ou algum bicho a roubar-lhe os figos antes que tenham ficado doces e maduros. É uma lástima só encontrar figos verdes e sentir-se usurpado a cada novo desejo por um figo. A história do urso e dos figos é a fábula do desejo e da espera, uma pequena fábula sobre o tempo da natureza - o ritmo de amadurecimento de um figo - e o tempo do desejo acalentado. E como não poderia deixar de ser, há uma raposa nessa história.

O Talmud é um texto antigo em que são discutidas as regras de comportamento do povo judeu, nele há várias menções sobre coisas e frutos que caem dos galhos e são encontrados pelo caminho. E o que diz o Talmud Babilônico sobre os figos? Segundo os ensinamentos contidos nesse livro, se as azeitonas caídas no chão não podem ser recolhidas por quem passa, o mesmo vale para os figos. “O rabi Abahu explica que a pessoa ao passar pelo caminho não pode pegar a azeitona para si, mesmo que o fruto esteja caído.”, assim diz o texto sagrado na tradução de Moacir Amâncio. Somente se o fruto tiver sido abandonado poderá se recolhido. Todas as situações comentadas no Talmud sobre poder ou não poder pegar um figo ou azeitona ou alfarroba mostram como é complicado tomar posse de algo encontrado, e como cada sujeito - ou urso - enfrenta provas de honestidade, mesmo que se trate apenas de uma azeitona caída, ou de um figo.

Torcemos para que o trabalho editorial da Chão da Feira nos traga outras fábulas contemporâneas como essa. Para quem não conhece, trata-se de uma editora luso-brasileira, dirigida por um grupo animado de mulheres muito atentas.

As belas ilustrações de Bernardo Carvalho aqui se concentram no essencial do drama do urso em sua espera desesperada, os traços simples revestem os desenhos de uma atmosfera rústica, bastante simpática ao olhar, tanto do adulto, quanto da criança. 

 

LAURA ERBER nasceu no Rio de Janeiro, em 1979. É escritora, professora, artista visual e editora. Dirige a Zazie Edições e o site Torvelim.


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