Travadinhas

Autora e ilustradora: Eva Furnari
Editora: Moderna
Coleção Girassol.
São Paulo, 2011
Número de páginas: 32


TROPEÇAR NA PRÓPRIA LÍNGUA

Por Rosana Kohl Bines 

 

Dentre os livros que celebram certo "descaso" com a atividade mental de produção de sentidos, em favor de experiências físicas com os fonemas da língua, tenho especial xodó por Travadinhas de Eva Furnari. A primeira página já anuncia com franqueza o que encontraremos nas seguintes:

Este é um livro de trava-línguas.
Leia bem depressa. Travou?
Leia devagar. Travou outra vez?
Então leia para três tigres tristes.
Eles vão chorar de tanto rir.

Na sequencia, Furnari apresenta uma série de quadros emoldurados, contendo cenas insólitas, "legendadas" por duplas de versos improváveis, tanto no plano fônico, quando no plano semântico. Seguem abaixo três destas vinhetas:

A vozinha da avezinha
Da avozinha do vizinho é nervosinha

O jantar da Gilza é geleia
De Jiló, Girassóis, Gerânios e Jasmins

A Ruth recheou o rombo da roupa
Da Rita com rodela de rocambole

Conhecidos como trava-línguas, esses jogos sonoros convidam-nos a testar nossa agilidade articulatória, propondo-nos combinações desafiadoras de fonemas, a partir da duplicação de certos encontros vocálicos e consonantais.


Tropeçar na língua não é aqui motivo de frustração, mas fonte de riso. Os trava-línguas programam nossos erros e nos oferecem um salvo-conduto para rirmos de nossas inabilidades. Afinal, não se trata de textos para o bem dizer, mas textos para errar, no sentido mais filosófico do verbo. Erramos na língua quando a percorremos sem rumo certo, sem alvo ou destino. Como numa viagem a um país desconhecido em que se desiste dos mapas para perambular nas ruas sem compromisso de se chegar a algum lugar. Quem nunca sentiu prazer na desorientação, que atire a primeira pedra!


As travadinhas de Furnari embaralham nossas línguas por puro deleite e assim autorizam as nossas falhas na clave do riso. Podemos nos comprazer de nossos fracassos, porque é justamente disto que se trata. Nós nos tornamos os leitores ideais do livro, quando cumprimos a sua sina, e oferecemos a nossa falta de jeito (e de prosódia) para produzir os efeitos calculados por uma narração a um tempo "perversa" e "cúmplice" da condição humana em sua trajetória sempre tateante pela vida.
O filósofo francês Gilles Deleuze diz algo muito bonito a esse respeito, quando enaltece a capacidade de certos ecritores de errar na língua, desviando a literatura dos rumos da "obra prima", em direção a rotas de fuga e de desequilíbrio, onde a língua balança em sonoridades imprevistas, que a mantêm viva e com potência de nos afetar:

"Fazer a língua gritar, gaguejar, balbuciar, murmurar em si mesma (...) Lawrence fazia tropeçar o inglês para dele extrair músicas e visões da Arábia. E Kleist, que língua despertava ele no fundo do alemão, à força de ritos, rangidos, sons inarticulados, ligações estiradas, precipitações e desacelerações brutais, expondo-se ao risco de sucitar o horror de Goethe, o maior representante da língua maior, e para atingir fins na verdade estranhos, visões petrificadas, músicas vertiginosas" (DELEUZE, 2006, p. 125).

Quando tentamos articular a travadinha "O grego gago é primo / Do gringo grogue", por exemplo, ativamos no português uma potência que está na base do trabalho literário de escritores do calibre de D. H. Lawrence e de Heinrich von Kleist, a quem Deleuze chamou de estrangeiros em sua própria língua. Os trava-línguas também nos encorajam a uma experiência de estranhamento com a língua materna, na medida em que nos forçam a produzir sons inexistentes, que não comunicam nada de inteligível e cuja força está exatamente em tornar presente um arquivo sonoro poderoso, mais rico, amplo e variado do que o conjunto reduzido de sons que efetivamente utilizamos no dia-a-dia. A potência do poético reside em colocar a língua em "estado de boom", na expressão de Deleuze, em que tudo treme e tudo vibra, tal como na escrita de Dante Alighieri, admirado pelo filosófo francês por ter "escutado os gagos", estudado todos os "defeitos de elocução", não só para deles extrair efeitos de fala mas para empreender uma vasta criação fonética, lexical e até sintática" (DELEUZE, 2006. p. 124).


Ao nos deliciarmos com os trava-línguas infantis, nos damos conta de que não há outros personagens além das próprias palavras e suas sonoridades estranhas. Esse encontro poderoso com a língua em sua dimensão mais corpórea, como presença material no mundo, nos sensibiliza para o fato de que a língua acontece e existe também numa dimensão de auto-referencialidade. E isso nos dá uma liberdade tremenda de ação. Podemos movimentar as palavras para lá e para cá, sem que precisem corresponder necessariamente a algo que exista no mundo.


Ao fim e ao cabo, brincar de errar na língua com nossos filhos é exercitar a liberdade de invenção e intervenção no universo da linguagem de que somos feitos.

 

ROSANA KOHL BINES é professora de literatura do Departamento de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade da PUC-Rio. Há mais de 20 anos atua voluntariamente como contadora de histórias na Educação Infantil do Instituto Benjamin Constant no Rio de Janeiro, escola federal voltada ao atendimento de pessoas com deficiência visual. Integra a Cátedra Sérgio Vieira de Melo PUC-Rio/ACNUR, cujo objetivo é promover o ensino, a pesquisa e a extensão acadêmica sobre temas relacionados ao refúgio. Dedica-se atualmente ao estudo de narrativas de deslocamento, ficcionais e testemunhais, sobre/de crianças e jovens em situação de refúgio. 

[Texto originalmente publicado no livro Que histórias contar para os filhos? na Coleção Mediações da editora Hum Publicações, Curitiba, 2016. Coleção Mediações é um projeto da Cátedra Unesco de Leitura. Agradecemos à autora e aos editores pela cessão dos direitos de reprodução.]

 


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