Você conhece a Píppi Meialonga?

Autora: Astrid Lindgren
Ilustradora: Ingrid Nyman
Companhia das Letrinhas
São Paulo, 2016
Número de páginas: 32
Tradução: Heloísa Jahn


A HEROÍNA DAS CRIANÇAS NÓRDICAS

Por Karl Erik Schøllhammer

 

Não me lembro exatamente em que momento conheci Píppi Meialonga. Não sei se foi no livro que pela primeira vez tive contato com a personagem, pois quando comecei minha vida de leitor a história de Pippi já era um clássico da literatura nórdica destinada às crianças. Acho que meu primeiro encontro com Pippi foi através do seriado realizado pela televisão sueca que saiu em 1969 e ganhou o coração de muitas crianças da minha geração. Ficávamos fascinados pela figura da menina ruiva de nove anos e seu nome impossível: Pippilotta Viktualia Rullgardinia Krusemynta Efraimsdotter Långstrump.

Píppi era uma menina de seu tempo, forte como um superherói, carregava seu cavalo nos braços, vivia sozinha na casa Villa Villekulla e se precisava de alguma coisa tinha um baú de pirata cheio de moedas de ouro.

O livro nasceu em 1941, quando Karen, a filha de Astrid Lindgren exigiu uma história sobre “Píppi Meialonga”. A autora sueca aceitou o desafio e o manuscrito do primeiro livro ficou pronto em 1945. Píppi era uma menina irreverente, fazia tudo pelo avesso e não temia ninguém, nem os policiais Kling e Klang e muito menos os ladrões Blom e Dunder-Karlsson que sempre queriam roubar o seu tesouro. Para o espanto e fascínio de Tommy e Annika, os irmãos bem educados e comportadinhos que moram na casa vizinha, Píppi só come panqueca, dorme com os pés na almofada e não obedece ordens de adultos.

Astrid Lindgren é um fenômeno na literatura mundial, vendeu mais de 165 milhões de livros em 18 línguas, todos de literatura chamada infantil. Um dos segredos dessa literatura foi construir personagens que desafiam a distinção entre adulto e criança. No universo de Lindgren as crianças percebem coisas que os adultos nem imaginam, criam mundos possíveis que a lógica adulta não pode controlar. É assim que seus livros tomam o partido das crianças. 

A menina Píppi impressionava porque era totalmente autônoma, não aceitava regras, ordens ou conselhos, e sempre procurava a aventura. Eu adorava a figura de Píppi, órfã de mãe e com o pai rei de uma ilha dos mares do sul. Píppi voltava para nosso mundo com o macaco Senhor Nilson e o papagaio de companhia.

Em 1949, Simone de Beauvoir lançou O Segundo Sexo, um marco para a consciência e para o debate feminista, mas para a minha geração, a figura de Píppi Meialonga era já a personificação da irreverência, independência e rebeldia das meninas. Ela foi apenas a primeira entre um leque de personagens infantis revolucionárias, inventadas por Astrid Lindgren, como Emil de Lönneberg e Ronja, Filha de Ladrão. Entre todos, Píppi foi a mais fascinante, não exatamente pelas travessuras que inventava, mas pela absoluta inocência e liberdade com que vivia todo tipo de transgressão de valores e hábitos.

 

KARL ERIK SCHØLLHAMMER é teórico e crítico literário, nascido em Aalborg, na Dinamarca. É doutor em Semiótica pela Universidade de Aarhus e professor titular de Literatura Comparada e Teoria da Literatura da PUC-Rio. Autor dos livros A Cena do Crime: violência e realismo no Brasil contemporâneo (2013) e Literatura Brasileira Contemporânea (2009), ambos editados pela Civilização Brasileira.


TORVELIM | Todos os direitos reservados © 2019 | contato@torvelim.com.br