A senha dos solitários ou voltando ao tempo da lesma

Ana Chiara

 

Para Felix e Maria

 

É preciso cavoucar a memória das leituras. Atravessar o nevoeiro. Imaginar uma criança. De onde ela vem? De Minas Gerais. Do fundo de uma história mineira. Pai, mãe, irmãos desterrados no Rio de Janeiro. Ela – entre os irmãos, meninos preferidos, atléticos, levados, pedia livros de presente. Lembra um livro da cidade dos anões, aquele mundo do mínimo. A imaginação da criança era ativada por tudo aquilo que Gaston Bachelard analisa em sua Poética do Espaço. Uma espécie de voyeurismo de uma Alice gigante, vendo pelo buraco da fechadura. Enredada no mundo da ficção, naquele dentro e fora que só as leituras podem oferecer.


Ganhou, certa vez de Natal, uma coleção de livros com formato pequeno e papel cartonado, de edições estrangeiras (12x6). Tê-los nas mãos, pequenos, elegantes, bonitos, era uma sensação táctil que só fazia aumentar seu amor pelos livros. Dentre aqueles, um pula da pequena estantezinha de madeira que os continha: O homem que calculava de Malba Tahan. Livro que, descobri há pouco tempo, meu afilhado leu também. Leituras de geração em geração.


Tinha inveja invencível de uma coleção do Tesouro da Juventude da qual a vizinha emprestava um volume por vez. Depois sua mãe compraria, a prestação, a enciclopédia Barsa, mas nada comparável ao Tesouro com suas magnífícas ilustrações. Na fazenda, de férias, lia Mistério Magazine Ellery Queen, onde treinava a leitura –detetive. Juntar indícios, colecionar pistas. Descobrir antes do fim o criminoso. O crime da literatura policial era este, treinava o olho, ao mesmo tempo que limitava a imaginação. Na Fazenda passava a maior parte do tempo com os empregados que contavam os casos. Eram narrativas muito pitorescas que invariavelmente começavam com “levantei de madrugadinha, corri uma água na cara...”. Eles foram muito importantes na vida da leitora porque a iniciaram na língua mineira que depois reconhecia nos livros de Guimarães Rosa. O que parecia difícil para alguns colegas na graduação, ao lerem Grande Sertão Veredas, era-lhe muito familiar. Era a música da língua caipira; ô sô, uai, cujos mestres eram eles, Seu Zé Franklim , Aparecido, o retireiro, Quinca o filho de Seu Zé que trocava estórias da "formiguinha que prendia a perninha" por aulas de alfabetização que ela e o irmão mais velho ministravam, eles eram gente de muita sabedoria, mestres em capinar, plantar, conhecer todas as plantas pelos nomes, em descascarem a cana fazendo roletes para que chupassem a cana, capazes de reformular o mundo por uma visão limpa, justa e simples. Perde-se o sotaque de Minas, mas Minas não se perde, permanece “dentro e fundo”.


Adolescente – ela tão sozinha, lia. Como no título de Alberto Giordano, a leitura era a “senha dos solitários”. O que lia agora? Tudo que lhe caía nas mãos. No Rio de Janeiro, lia indiscriminadamente: Jorge Amado, Guimarães Rosa, Mario Palmério, Adonias Filho. Lia o que a mãe lia. Da mãe, veio a implicância com Machado de Assis que perdura num misto de amor e tédio. Amor difícil. Dom Casmurro foi lido muito cedo, aos 12 anos talvez. Leu muitas antologias de contos e de poesia. Amava ler Poesia Moderna de Péricles Eugênio da Silva Ramos (1967), desta os versos de Mario de Andrade: “A tarde se deitava nos meus olhos / E a fuga da hora me entregava abril, / Um sabor familiar de até-logo criava / Um ar, e, não sei porque, te percebi”, complementados pela visão epifânica do Anjo “O arcanjo forte do arranha-céu cor de rosa, / Mexendo asas azuis dentro da tarde” (Poemas da Amiga). Estes versos eram tão impressionantes para o coração da menina-moça que deles nunca mais se esqueceu. Deles vieram sua crença nos anjos: “Quem se eu gritasse, me ouviria, pois entre as ordens dos anjos? E dado mesmo que me tomasse um deles de repente em seu coração, eu sucumbiria ante sua existência mais forte. Pois o belo não é senão o início do terrível, que já a custo suportamos, E o admiramos tanto porque ele tranqüilamente desdenha destruir-nos. Cada anjo é terrível. E assim me contenho pois, e reprimo o apelo" (Rilke).


Como se pode depreender, a educação sentimental desta leitora foi caótica e livre. Havia por parte de seus pais total confiança no seu discernimento ou no dos livros? Desconfio que nos dois. Nunca fora proibida de ler nada. Segredos à boca da noite.


São evocações, impressionistas, são fragmentos de muitas leituras. Momentos de intimidade silenciosa e enganosa solidão que partilhava com os livros cúmplices. A leitura se confunde muitas vezes com a biografia íntima, não se submetendo às solicitações da escola, da família, dos amigos e agora dos tais conselheiros dos VLOGS. Nestes casos, leitura circunscreve um momento de introversão e de exclusão do que é circundante ou circunstância. Talvez uma busca narcísica de um outro de si. Um encontro assegurado do qual podemos voltar a qualquer momento, fechando o livro, acordando para a realidade, trazendo um gosto muito íntimo de uma diferença: a felicidade clandestina de Clarice Lispector. A leitura como viagens de ida com passagem de volta.


Obviamente, a opção pela leitura na vida atual é conflitante com os apelos do fácil e do descartável, do mergulho nos joguinhos reiterativos dos telefones, tablets, aplicativos. A experiência com o papel, com o folhear, com o livro deitado sobre o rosto quando se cochila, nada tem a ver com a superfície lisa do vidro da tela. Os aparelhos, onde se lê atualmente, não têm cheiro como os livros têm.


Já estive, por duas vezes, muito próxima das questões relativas à leitura e educação: pela primeira vez, quando voltei de licença maternidade de minha filha e tive de criar uma “atividade de biblioteca” no Colégio São Vicente de Paulo. Nesta ocasião, recuei um passo crítico para pensar com a ajuda de educadores e de escritores a relação da criança com a leitura. De outra vez, quando participei com Maria Helena Werneck de um grupo de trabalho, coordenado pela Profa. Eliana Yunes, que daria origem ao PROLER da Biblioteca Nacional, na gestão de Affonso Romano de Sant'Anna. Com o PROLER, viajei algumas vezes para ministrar Oficinas de leitura sobre memória. Mas, a mais importante “aventura no silêncio” – assim Renata, minha filha, chamou as vezes em que eu a levava aos 8 anos para a Biblioteca da PUC para pesquisar sobre temas terríveis da dissertação que fiz sobre Pedro Nava – foram as que fiz em companhia dos meus filhos, quando lia histórias para eles.


Marcelo, marmelo, martelo, de Ruth Rocha, que lia para o meu filho Marcello como se tivesse sido escrito somente para ele, direto para o seu coração, FLICTS do Ziraldo, um dos livros mais geniais sobre a diferença e a imaginação são livros que marcaram nossa relação de leitura. Renata nunca pode vencer o medo de Chapeuzinho Amarelo de Medo, de Chico Buarque.


Meus filhos são dos anos 70. Nos anos 80, comecei a perceber que a imaginação, marcante nas leituras de minha infância, cedia lugar ao realismo, ao didatismo e às histórias que visavam corrigir certos comportamentos e ideias. Uma pergunta que é preciso levantar diante da perspectiva dos adultos sobre a leitura: será que as crianças não são capazes de extrair das leituras suas próprias respostas? Sem pretender conclusões prontas, creio que a literatura infantil é uma porta com movimento de ida e volta. O circuito não deve ficar bloqueado impedindo que a criança vá e volte sozinha, por isso é importante a mediação atenta e libertadora. Nem que se perca no mundo da ficção, nem que fique impedida de um encontro com sua experiência do mundo real. Outro cuidado é oferecer multiplicidade de textos em que as diferenças se vejam contempladas, prestando atenção aos grupos identitários quando se queixam da falta de representatividade de seus grupos nas estórias canônicas.


Antes de finalizar, gostaria de falar “de coração, par coeur, de memória”, de um livro que lia para minha filha, e para a menina que ficou lá, deitada na rede, lendo, no início deste texto. Lúcia já vou indo, de Maria Heloisa Penteado, sobre uma lesma que “andava devagar, falava devagar, chorava e ria devagarinho e pensava mais devagar ainda.”. Um livro sobre a lentidão, um dos temas das conferências de Calvino em Seis propostas para o próximo milênio. O deleite provocado pelo lento deslocar de Lúcia em tudo se contrapõe à rapidez voraz que nos devora na atualidade. A concentração de Lúcia, sua visão detalhista, ensina-nos a olhar e ver: Viu dona Içá, com a cinturinha apertada num cinto de fivela de ouro, de braço dado com o marido de camisa listada e boné. Viu Lili Taturana, toda besuntada de brilhantina para que seus pelinhos não ficassem arrepiados. Viu Zé Caramujo de cachecol xadrez enrolado no pescoço. Viu as formiguinhas Quem-Quem numa longa fila, comportadas e quietinhas como meninas de orfanato a passeio num domingo. Viu abelhas, besouros, pernilongos, vespas e mil outros bichinhos. Todos passavam por ela e sumiam ao longe.


Lúcia vê a multiplicidade da vida, as belezas miúdas. Lúcia mastiga devagar um pé de alface como mastiga as palavras. Indo devagar chegava sempre atrasada às festas. Ao final, o poder de dar sua própria festa é repassado à Lúcia, assim como a cada um deve caber o direito de compor sua própria biblioteca. Lúcia nos ensina a ler devagar com repetições e retomadas no texto. Este é um exercício de leitura inestimável para crianças e adultos, desta forma, o poder lúdico das palavras, da literatura, pode opor uma lenta resistência às leituras apressadas deste tempo ao qual diremos como Lúcia: Já vou indo...

 

ANA CHIARA é professora de Literatura Brasileira da UERJ. Foi professora do Colégio São Vicente de Paulo (1980 a 1987) e do Colégio Pedro II / Unidade Humaitá (1990 a 1995). Participa do Projeto PROLER (Fundação do Livro Infanto Juvenil/ Biblioteca Nacional).


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