E por falar em Asdrúbal

Laura Erber

 

El humor es algo parecido a la felicidad, a la revolución y al amor.
Roberto Bolaño

 

Nenhum adulto tem acesso pleno à criança leitora que foi um dia, pois, como já afirmou Cecília Meireles, a infância é um “reino que começamos a desconhecer desde que o começamos a abandonar”. O afastamento desse reino tem sérias consequências, e a presunção de, longe dele, definirmos “o que é bom para as crianças”, se sustenta certamente em mais de um ponto cego. Porém, há livros lidos na infância que nos marcaram de tal maneira que, revisitados mais tarde, reavivam sensações da primeira leitura com estranha nitidez. É o meu caso com as histórias de Asdrúbal, o Terrível, escritas e desenhadas por Elvira Vigna.


Começo por levantar a pergunta: o que tanto teria me atraído nos livros que contam as aventuras do monstro amarelo dito Asdrúbal? Lembro-me – mas posso estar inventando – de tê-los achado cômicos: os desenhos eram brutos e faziam rir, e ainda havia comentários que perseguiam e criticavam as ações desajeitadas de Asdrúbal ao longo das desventurosas tentativas de ser terrível. Disso gostei mesmo, e não invento: era uma história que ria e zombava do próprio personagem; ria aliás também da própria ilustração – um pequeno balão à esquerda da página 6 do segundo livro diz assim: “Não poderiam ter arranjado um desenhista melhorzinho?”. E por fim isto: o amarelo Asdrúbal se dirigia várias vezes ao leitor, rompendo o espaço narrativo com cartazes de protesto que carregava pelos jardins. Asdrúbal era ambicioso e desastrado, ranzinza e simpático. A criança que fui adorou isso.


São quatro livros: A breve história de Asdrúbal, o Terrível (José Olympio, 1978); A verdadeira história de Asdrúbal, O Terrível (José Olympio, 1979); Asdrúbal no museu (José Olympio, 1980); e O triste fim de Asdrúbal, o Terrível (Miguilim, 1983). Os livros percorrem a história do monstro Asdrúbal em suas, em geral, malogradas tentativas de praticar monstruosidades. Sabemos que Asdrúbal é amarelo, tem vários pés e uma voz horrível. Odeia borboletas, mas não sabe assustá-las como se deve. É um destruidor pouco feliz em suas investidas contra a natureza. Embora o último volume tenha sido editado pela Miguilim, o projeto gráfico e o formato se mantiveram.


Na breve história do primeiro livro, Asdrúbal é humilhado pelos animaizinhos que deveria assustar, decide parar para “pençar” e é corrigido pela narradora. Asdrúbal chora de frustração, e seus pais decidem que é hora de a família se mudar para a Argentina. Com eles vai a barata de estimação de Asdrúbal, sempre disposta a comentários enervantes. Os animais do jardim dançam uma ciranda, comemorando a partida da família monstro. A história é retomada no segundo volume, que começa com um simpático “Lá vamos nós”. A escrita de Elvira Vigna de fato convida a embarcar numa viagem sem rumo claro. Não sabemos por onde vamos, mas zarpamos com a narradora em direção ao inesperado, e depois, de repente, de volta a nós, isso quando ela não nos lança abruptamente ao rés do chão da realidade da leitura e do livro.


No terceiro volume, Asdrúbal vira obra rara do Museu Dum-Dum, de onde tentará escapar lançando mão de estratagemas vergonhosos. Acho que foi esse o primeiro livro a me apresentar a ideia de que as obras de arte ou artefatos expostos em museus têm vida própria, independentemente da presença e do olhar do espectador. Essa outra vida do museu é diferente daquela que conhecemos como visitantes. E Vigna não nos poupa de sua crítica irônica ao tédio que alguns museus podem produzir, tédio que as crianças conhecem muito bem. No último livro da série – o meu predileto, confesso –, acompanhamos a tentativa de Asdrúbal de se tornar imortal escrevendo uma autobiografia. Já nos agradecimentos ele empaca: dedica para o Aníbal com saudades, depois com lembranças, depois exclui as opções anteriores e acaba por dedicar ao amigo Aníbal sua modesta e presunçosa obra. Testa diferentes possibilidades. Empaca de novo. Olha o ar. O livro da sua vida vai se chamar Minha Lufa-Lufa. E no percurso Asdrúbal descobre que essa coisa de sucesso vicia, que vai passar o resto da vida procurando o próprio nome no jornal. Aqui interrompo os comentários, porque cada um deverá ler a Lufa-Lufa e tirar suas conclusões.


Vigna fazia nesses livros algo que foi se tornando cada vez mais raro na narrativa infantil. Escreve com rédea solta. Não controla muito a leitura. Não faz questão de marcar os diálogos com inserções de adjetivos e qualificações que supostamente “ajudariam” a criança leitora a compreender a narrativa, produzir imagens mentais e dramatizar as emoções. Aliás, Vigna quase nunca parece assumir que seus leitores precisem da “ajuda” do autor para ler corretamente e entender o que leem. Considera os leitores cúmplices críticos do seu processo, por isso talvez o recurso constante à autoironia e à derrelição.

Descontrole e disparate
Essa espécie de descontrole narrativo comparecia em outros textos destinados às crianças de minha geração. Há livros de Sylvia Orthof cujo enredo evolui de maneira intempestiva e inexplicável. Algo mudou nos últimos anos? Difícil afirmar. Somente uma análise cuidadosa da literatura infantil publicada em português nas últimas duas décadas poderia revelar as reais mutações na escrita literária e na concepção de criança e de literatura por trás dos livros.


Em Rima e solução: a poesia nonsense de Lewis Carroll e Edward Lear (Annablume, São Paulo, 1996), Myriam Ávila questiona a noção de nonsense em literatura. Como situa a autora, o nonsense surge em um contexto em que era necessário corroer as normas vitorianas que regiam a sociedade, os costumes e a linguagem. O nonsense não seria a ausência de sentido, mas sim uma corrosão da lógica que sustenta a sua construção. Há momentos nos livros de Asdrúbal que parecem saídos de um texto de Qorpo Santo, estes versos poderiam integrar as observações do monstro amarelo: “Tão lindas as aranhas/ Tão belas, tão ternas/ Pois caem do teto/ e não quebram as pernas!”.

“Não poderiam ter arranjado um desenhista melhorzinho?”
Não se deve confundir descontrole narrativo com falta de cuidado ou de labor, nem acreditar que desenhos toscos são sempre desprovidos de engenho plástico. É do lado do humor e no flerte com o nonsense que se deve buscar o entendimento dessa escrita e dessas imagens. Mais uma pergunta: o humor voltado à criança mudou de sentido? Desconfio que sim. As narrativas parecem agora mais insistentemente pedagógicas, reinvestiu-se na regra do ensinamento útil fantasiado de divertimento leve. Nessa conta, o humor paga um preço ou fica menos importante, rir é coisa séria e pode até ser polêmico. Melhor rir mais baixo, ou sorrir apenas. É mais seguro. Decerto temos ainda Eva Furnari em plena atividade e podemos contar com o traço simpático e irreverente de Mariana Massarani – que aliás já conseguiu salvar diversos textos do naufrágio na banalidade e no tédio. Tivemos ainda a alegria de conhecer o Sapo Ivan, de Henfil, figurinha indisciplinada e carregada de um humor distante da cultura da piada prêt-a-porter, tão próxima da publicidade. O humor literário parece pender hoje mais para a irreverência e a paródia, sobretudo em livros estrangeiros traduzidos que retomam as fábulas e suas imagens para desfigurá-las, o que nem sempre resulta interessante.


Não seria descabido levantar a hipótese de que a vinculação – e mesmo a dependência – do universo editorial infantil ao ensino através das grandes compras governamentais, muitas hoje infelizmente interrompidas, possa ter produzido interesse menos expressivo por narrativas abertas e de estrutura mais sinuosa e descontínua. Penso em certos livros de Sylvia Orthof que se desenvolvem à maneira de viagens sem destino em contraste com uma literatura estruturada à maneira de um roteiro edificante, onde cada elemento precisa ter função clara, ou seja, precisa ser claramente “útil” à economia da narrativa, e esta, por sua vez, para ser “útil”, precisaria abraçar critérios didáticos: quanto mais conseguir ensinar, melhor. A ideia de que o livro ensina algo é certamente potente, mas levada ao extremo pode significar uma homogeneização da linguagem literária.


Não que os livros de Asdrúbal sejam desprovidos de forma, mas a narrativa ganha forma de maneira não previsível e não premeditada. Não parece que estamos diante de um narrador que conta à criança uma história que ele dominaria, mas sim diante de uma história que se constrói performativamente, enquanto se escreve. Nesse sentido, Asdrúbal seria uma figura dessa performance da linguagem em seu percurso incerto, rumo a um desconhecido núcleo de sentido.


Ilustração e poema não representam uma cena de instrução, mas uma cena contraditória que se autocritica no momento mesmo em que se desenvolve. Assim, liberada da obrigação de ensinar, esse tipo de escrita deixa de encarar a criança como receptáculo dos saberes adultos, e o que temos então é um adulto jogando com a linguagem, nos limites da narratividade. Disso resulta um texto fortemente vinculado ao inusitado e à vertigem, à possibilidade sempre iminente de que a narrativa se perca de si, ultrapassando o limiar do sentido. O humor comparece precisamente aí. Ele nos salva de nossa presunção e nos leva ao museu.

Consideração final ou à maneira de Asdrúbal: curta e grossa
Nascida em 1947 e falecida em 2017, Elvira Vigna ficou mais conhecida como escritora de romances e contos para adultos a partir da publicação de O assassinato de Bebê Martê (1997) pela Companhia das Letras. Desde então, as notas biográficas e os perfis que a apresentam passaram a minimizar a importância de sua produção infantil. Gesto previsível mas lamentável, que demonstra um forte preconceito em relação à literatura infantil, sobretudo quando se trata de elaborar as tramas da consagração de um autor respeitável, neste caso autora.

E, por favor, reeditem o Asdrúbal.

 

 

LAURA ERBER nasceu no Rio de Janeiro, em 1979. É escritora, professora, artista visual e editora. Dirige a Zazie Edições e o site Torvelim.

[Artigo originalmente publicado no Suplemento Pernambuco, em sua edição de junho de 2019.]


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