Sapo Ivan e o bolo

Autor e ilustrador: Henfil
Editora: Nova Fronteira
Rio de Janeiro, 2011
Número de páginas: 20


SIMPATIA E GRAÇA DO SAPO

Por Laura Erber

 

O que define um desenho engraçado? É difícil dizer com certeza, mas o cartunista mineiro Henfil conseguiu dar aos seus personagens Ivan, Olavo, Chica e Ananias uma graça rara de se ver.

São figuras feitas de traços bruscos, que dispensam o detalhe e, como nas charges, conseguem expressar a atitude ou a emoção de uma tacada só. Jaguar dizia que Henfil desenhava como quem faz caligrafia, ou seja, um desenho que parece uma forma de escrita. Henfil achava que seus desenhos eram uma espécie de perseguição de ideias. Essa perseguição devia ter algo de frenético, para não deixar a ideia escapar, o traço se apressa. Em uma longa conversa com Tárik de Souza, Henfil disse:

"O desenho vem atrás da ideia, ele é espelho da ideia. Se não tenho uma ideia eu não formo imagens, eu não consigo desenhar nada. Acho que é o mesmo caso do Verissimo, que não sabe desenhar nada, mas que tem muito a dizer. Aí criou um desenho pessoal feito uma assinatura. E aí você vira uma escola, um caminho [...] Pô, bote uma ideia na cabeça que o desenho vem atrás." [Em Tárik de Souza. Como se faz humor político. Petrópolis: Vozes, 1984]

O desenho corre atrás da ideia, e as figuras são o testemunho desse movimento. Henfil trabalha isso com informalidade, a mesma que encontramos nas charges de jornal. Temos a impressão de que os amigos do Sapo Ivan são um pouco também amigos nossos, que seria ótimo bater um papo com eles.

A coleção dos livros do Sapo Ivan surgiu como projeto familiar; Henfil criou o sapo para o seu único filho, Ivan. Nesse sentido, a série faz parte daquela categoria de livros infantis que em sua origem estiveram destinados a um único leitor privilegiado. De fato, os livros parecem guiados pela necessidade verdadeira de contar ou recontar para alguém próximo e querido uma história compacta. Em um dos livros Henfil reconta a fábula da Galinha Ruiva, põe o Sapo e Ivan e a Pata Chica como protagonistas. É como se os dois interpretassem os papéis de um filme velho e conhecido. No fim da história ele intervém e incluí uma segunda volta do parafuso. Atenção spoiler: depois de darem uma lição nos amigos preguiçosos, Chica e Ivan comem sozinhos o bolo inteiro e passam mal.


O tratamento das historietas dessa serie é sempre cômico e por vezes beira o absurdo. Em Sapo Ivan e o coração, Henfil cria uma situação maravilhosamente esquisita de engole e vomita e engole, e depois coração aos pulos. Já Sapo Ivan e a cobra, por exemplo, temos uma explicação divertidamente absurda do por que as cobras têm a língua cortadinha. A explicação não pretende ser correta, nem ensina ao leitor a verdadeira história da língua das cobras. A sapa Gilda, mãe do sapo Ivan, tem sempre respostas bisonhas para as perguntas do filho. Não são verdades, são imaginação em estado bruto.


O humor desses livros vem também do tratamento hiperliteral, o desenho permite transformar a metáfora do “coração aos pulos" em um coração que pula pra valer. E também por isso a vaca diz “Oi, eu sou a vaca”. Esse mesmo fio terra faz com que o bolo da Galinha Ruiva deixe de ser só uma lição de moral para se tornar causa de dor de barriga. Porque depois (ou antes?) da moral da história tem sempre o real da vida como ela é, e o corpo está sempre aquém ou além das lições de moral.


Grande parte da ilustração contemporânea de livros para crianças pequenas quer participar do mundo da fofura sem tanto interesse na captura visual de uma ideia. Desenhos fofos podem ser encantadores, mas, quando se tornam uma estética hegemônica que tudo engole à sua volta, reduzem possibilidades de expressão plástica e limitam o repertório visual e sensível das crianças.

 

LAURA ERBER nasceu no Rio de Janeiro, em 1979. É escritora, professora, artista visual e editora. Dirige a Zazie Edições e o site Torvelim.


TORVELIM | Todos os direitos reservados © 2019 | contato@torvelim.com.br